19.7.08

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!


Acto I

Ao abrir o pano, a cena está às escuras, encontrando-se uma única personagem intensamente iluminada, ao centro e à frente do palco. Esta personagem está andrajosamente vestida.

MANUEL: Que posso eu fazer? Sim: que posso eu fazer?
A pergunta é acompanhada dum gesto que revela a impotência da personagem perante o problema em causa. Este gesto é francamente «representado». O público tem de entender, logo de entrada, que tudo o que se vai passar no palco tem um significado preciso. Mais: que os gestos, as palavras e o cenário são apenas elementos duma linguagem a que tem de adaptar-se. (Dá dois passos em direcção ao fundo do palco, detém-se, e continua)
Vá-se a gente livre dos Franceses, e zás!, cai na mão dos Ingleses!
E agora? Se acabamos com os Ingleses ficamos na mão dos reis do Rossio...
Ao dizer isto a personagem está quase de costas para os espectadores. Esta posição é deliberada. Pretende-se criar, desde já, no público, a consciência de que ninguém, no decorrer desta peça, vai esboçar um gesto para o cativar ou para acamaradar com ele. (O réu não se senta ao lado dos juízes.)
Entre os três o diabo que escolha...
(Pausa)
Muda de tom à voz. Está a imitar, com sarcasmo, alguém que se não sabe quem seja.
Entende-se, todavia, que a personagem se refere ao ambiente político da época.
Deus todo-poderoso para a frente... Deus todo-poderoso para trás... Sua Majestade para a esquerda... Sua Majestade para a direita...
(Pausa)
Volta ao seu tom de voz habitual.
E enquanto eles andam para trás e para a frente, para a esquerda e para a direita, nós não passamos do mesmo sítio!
Ilumina-se, subitamente, o fundo do palco. De pé e sentadas, várias figuras populares conversam. Algumas dormem estendidas no chão. Uma velha, sentada num caixote, cata piolhos a uma rapariga nova. (Avança e detém-se junto duma mulher ainda nova, que dorme, no chão, coberta por uma saca)
MANUEL: A Rita dorme, A que horas chegou ela? A pergunta não é dirigida a ninguém.
POPULAR: (Levantando-se dum salto e macaqueando as maneiras dum fidalgo, finge tirar um relógio do bolso dum colete inexistente)
O gesto é lento, deliberadamente sarcástico.
Saiba, meu senhor, que a Senhora D. Rita chegou tarde. Eram quase cinco horas pelo meu relógio de ouro.
(Finge levantar o relógio para o ver melhor.
Desfaz o gesto com violência e continua em tom raivoso)
Alguém aqui tem relógio?
(Como ninguém responde, volta a dirigir-se a Manuel) O tom é irónico.
Esqueceram-se dos relógios em casa...

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!


I

1. O excerto transcrito é rico em referências que nos situam num determinado ambiente epocal.
1.1. Identifique esse ambiente.
1.2. Caracterize a personagem colectiva e a situação em que se encontra.
2. Na fala inicial, Manuel interroga-se: "Que posso eu fazer? Sim: que posso eu fazer?"
2.1. Identifique o estado de espírito da personagem.
2.2. Refira as razões desse estado de espírito.
3. Justifique as atitudes e as palavras do 1.° Popular.
4. "Pretende-se criar, desde já, no público, a consciência de que ninguém, no decorrer desta peça, vai esboçar um gesto para o cativar ou para acamaradar com ele. (O réu não se senta ao lado dos juizes.)"
4.1. Explique o sentido da afirmação, tendo em conta a situação a que se refere.
4.2. Comente a imagem final dessa afirmação.
5. Releia a didascália inicial. Tendo em conta o conhecimento que tem da obra na sua globali¬dade, indique em que medida se confirmam as seguintes afirmações:
5.1. "Manuel - O mais consciente dos populares"
5.2. "D. Miguel Forjaz/Beresford/Principal Sousa - Três conscienciosos governadores do Reino"
5.3. "O General Gomes Freire D'Andrade - que está sempre presente, embora nunca apareça."


II

Após o estudo da peça Felizmente há Luar!, comprove, num texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, a veracidade da seguinte afirmação:
«A defesa da liberdade e da justiça, atitude de rebeldia, constitui a hybris (desafio) desta tragédia. Como consequência, a prisão dos conspiradores provocará o sofrimento (pathos) das personagens e despertará a compaixão do espectador.»