14.7.08

Kitty Corcoran e a Fada Vermelha




Kitty era uma rapariga nova, bonita, simpática, mas estava sempre doente. Ou melhor, adoentada. E ninguém descobria a origem do mal.
Paddy, o marido, levara-a aos melhores médicos da Irlanda. Como nenhum acertasse, procurou curandeiras, adivinhos, enfim, quem pudesse ajudá-lo a descobrir que doença tinha a mulher. Em vão!
Kitty levantava-se todas as manhãs com grande esforço. Pálida, tristonha, quase não tocava na comida e lá fazia os arranjos da casa sem entusiasmo nenhum. A vassoura parecia-lhe pesadíssima. O pano de pó provocava-lhe ataques de tosse; acender o lume e cozinhar então era o pior de tudo!
Para a pobre rapariga, as tarefas mais simples iam-se tornando gigantescas.
A única solução que encontrou foi habituar-se a ser muito metódica.
— Se não marcar uma hora para cada trabalho, o mais certo é não fazer trabalho nenhum!
Assim, ao nascer o Sol arrumava o quarto. Ao meio-dia em ponto servia o almoço. Ao fim da tarde lavava o chão; antes do pôr do Sol abria a janela de par em par e despejava o balde de água suja para o jardim.
Paddy, admirado com a sua força de vontade, gabava-a muito aos vizinhos:
— A minha mulher é um exemplo. Está cada vez mais fraquinha e nunca falta aos deveres de dona de casa.
Querendo ajudá-la a recuperar a saúde, cobria-a de mimos e atenções. Raro era o dia em que não lhe levava um petisco: manteiga fresca, doces, costeletas de carneiro. Mas não tinha outro remédio senão comer tudo sozinho, porque ela só de olhar para a comida ficava agoniadíssima.
(…)
Na época das colheitas, quando os campos ganham animação e o ar cheira a plantas cortadas de fresco, Kitty caiu numa melancolia profunda.
— Toda a gente está feliz menos eu! — suspirava.
Exausta como sempre, estendia-se ao comprido na cama junto da lareira. Embora fosse a estação mais quente, tinha tanto frio!
Certo dia, ouviu uma voz melodiosa chamar:
— Kitty! Kitty Corcoran!
— Quem está aí? — perguntou, soerguendo-se nas almofadas.
Na beira da cama viu então uma fada minúscula, linda, envolta num manto vermelho.
Estaria a sonhar? Ainda esfregou os olhos, mas a visão não se desvaneceu.
— Kitty Corcoran, ouve o que tenho para te dizer.
Ela acenou que sim, num misto de espanto e receio. Se uma fada se dera ao trabalho de a visitar, o melhor era escutá-la com deferência e não dizer coisa alguma, pois as fadas são muito susceptíveis e ofendem- -se ao mínimo deslize.
A voz doce e melodiosa continuou:
— Estás doente há mais de sete anos, não é assim?
— É.
— Pois fica sabendo que a culpa é tua.
— Minha? Porquê? Que mal é que eu fiz para merecer semelhante castigo?
A figurinha vermelha deu alguns passos sobre a colcha e explicou:
— Simpatizo contigo, portanto vou dizer-te a verdade. Eu pertenço ao «bom povo» [o povo das fadas, bruxas, gnomos, etc.]. Nos nossos passeios cruzamos a tua porta duas vezes ao dia. Uma de manhã, outra ao pôr do Sol. Ora quando atravessamos o jardim à tardinha, apanhamos sempre com baldes de água suja em cima da cabeça. Foi por isso que resolvemos castigar-te com esta doença que não anda nem desanda.
Kitty ficou muda, pois não sabia o que dizer. Era injusto, o castigo! Não podia adivinhar que o seu jardim pertencia ao caminho das fadas… mas reclamar, nunca! Na Irlanda, toda a gente conhece o feitio instável e imprevisível do «bom povo», que ora protege os humanos ora se diverte pregando-lhes partidas muito desagradáveis.
— Se prometeres nunca mais deitar água suja naquele sítio e àquela hora, ficas curada.
Claro que a resposta só podia ser uma:
— Prometo! Prometo, sim!
A figurinha vermelha sorriu e antes de se despedir disse ainda:
— Lembra-te de que se não cumprires a promessa não recuperas a saúde porque nenhum homem te pode curar!
Depois acenou e desapareceu como por encanto.
No dia seguinte Paddy teve a maior surpresa da sua vida. A mulher acordou bem-disposta, risonha, corada, e fez-lhe companhia à mesa, deliciando-se com belíssimas costeletas de carneiro!

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada,
Histórias e Lendas da Europa (Irlanda)
I

1. Qual era o estado físico de Kitty?

2. «Para a pobre rapariga, as tarefas mais simples iam-se tornando gigantescas».
2.1 Que solução arranjou ela para resolver este problema?

3. Perante a coragem da mulher, como se sentia o marido?
orgulhoso ?
indiferente ?
violento ?

4. Kitty foi visitada por uma fada que lhe explicou a razão da sua doença. Qual?

5. Depois de Kitty ter cumprido o que prometeu à fada, o que sucedeu?