30.7.08

Falar Verdade a Mentir



CENA IV

Criado, (trazendo uma carta). – Para o senhor Brás Ferreira, do Porto.
Brás Ferreira – Sou eu: dá cá. (abre) Ah! é para o tal pagamento. (O criado sai.) Vejamos as minhas contas: quanto tenho eu em dinheiro? ... Dá-me licença, Duarte; tenho uns papéis que arranjar. Conversa com minha filha. (Tira a sua carteira, e vai sentar-se à esquerda.)
Amália (baixo a Duarte) – Não se emenda, está visto.
Duarte – De a adorar? Não, decerto.
Amália – Não é disso, é do seu maldito vício que nos deita a perder: meu pai jurou que desfazia o nosso casamento se daqui até à noite o apanhasse numa mentira.
Duarte – Oh meu Deus, o que fiz eu?!
Amália – Pois que é, Duarte? Tudo quanto tem estado a dizer? ...
Duarte – É verdade no fundo; acredite: agora os detalhes... os pormenores…eu não sei como isto é... não é com má tenção... mas a maior parte das vezes, as coisas contadas tais quais como elas são... ficam duma sensaboria tal...
Amália (com ironia) – Que não pode resistir ao desejo de as enfeitar, e de mostrar a riqueza da sua imaginação.
Duarte – Não torno mais. Juro-lhe que nunca mais.
Amália – Cale-se, que pode ouvir meu pai.
Duarte – Não me importa, não tenho medo: estou emendado e para sempre. Amália, prometo, hei-de ser o modelo dos maridos, leal, sincero, verdadeiro, sempre...
Amália – Sempre! Se meu pai ouvisse essa palavra, desfazia logo o nosso casamento.
Duarte – Amália, isso também é de mais! ...
Brás Ferreira (chegando com um papel) – Não tenho dinheiro que chegue. E eu sem me lembrar! Duarte, hás-de-me fazer um favor.
Duarte – Qual? Estou pronto.
Brás Ferreira – Uma letra de três contos de réis para descontar.
Duarte – Em bem má ocasião, coa fortuna! não tenho pinto.
Brás Ferreira – Não tens!... e aquele dinheiro?
Duarte – Qual dinheiro?
Brás Ferreira – O da tua casa.
Duarte – Da minha casa? ... Ah sim, é verdade. É que actualmente...
Brás Ferreira – Já dispuseste dele?
Duarte – Não, não, isto é, de certo modo já; mas propriamente...
Amália (baixo a Duarte) – Vê o que é mentir.
Duarte – Em suma, porque lhe não hei-de dizer francamente o que é, meu tio? ... Eu tinha minhas dívidas...
Amália – Outra, Duarte?
Duarte – Não, esta não; é verdade puríssima. Um rapaz não pode viver sem isso. Ora sucedeu, por uma coincidência esquisita, que o comprador da minha casa, o tal senhor José Marques...
Brás Ferreira – Inda agora disseste Tomás...
Duarte – Tomás José Marques, um fino agiota de gema...
Brás Ferreira – Tinhas-me dito um negociante...
Duarte – Negociante, porque negoceia em papéis e descontos por atacado, e faz usura em grosso. Enfim, o meu honradíssimo homem, que já é comendador e sai conselheiro um dia destes, era o que me tinha emprestado o dinheiro. De sorte que na compra da casa, feitas bem as contas...
Brás Ferreira – E tu devias ao comprador?
Duarte – Uns dez a doze contos de réis.
Brás Ferreira – Então vendeste por trinta e três; tem de te dar ainda de tornas vinte e um contos.
Duarte (atrapalhado) – Vinte contos de réis... É o que lhe eu dizia... (aparte) Como hei-de eu sair desta?
Brás Ferreira (olhando para ele) – Dar-se-á caso que tu me pregasses uma das tuas... que tal comprador não exista? ...


Falar Verdade a Mentir, Almeida Garrett


I


1. Este texto, extraído da peça de teatro Falar Verdade a Mentir, fala-nos de um determinado vício.
1.1. Qual é o “maldito vício” de que fala Amália?
1.2. Como justifica Duarte o seu “vício”?
1.3. Que consequência(s) pode(m) vir a resultar deste defeito?

2. Considera o provérbio: “De promessas e de boas intenções está o Inferno cheio.”.
2.1. A que parte desta cena se pode aplicar este provérbio?
2.2. Explica porquê.

3. Explica por palavras tuas as expressões destacadas:
a) “Não é nada disso, é do seu maldito vício que nos deita a perder” (2ª fala de Amália)
b) “(...) as coisas contadas tais quais como elas são... ficam de uma sensaboria tal...” (3ª fala de Duarte)
c) “Em bem má ocasião, coa fortuna! Não tenho pinto.” (8ª fala de Duarte)

4. “Amália (com ironia) – Que não pode resistir ao desejo de as enfeitar, e de mostrar a riqueza da sua imaginação.”
4.1. Explica o que é a ironia.


II

1. Completa convenientemente as seguintes afirmações:

a) Um autor de um texto dramático denomina-se ____________________________________.
b) O ____________________ é uma das divisões do texto dramático sempre que há mudança de cenário.
c) O assunto da peça Falar Verdade a Mentir gira em torno de _________________________.
d) Chama-se _____________________ à modalidade discursiva em que várias personagens falam entre si e _________________________ à modalidade discursiva em que fala apenas uma personagem. Os _________________ são indicações que o actor dá e que se destinam a serem ouvidas apenas pelo público, provocando geralmente o riso.
e) Almeida Garrett, autor da peça Falar Verdade a Mentir, viveu no século _________.


III


1.Elementos da oração:
1.1- Identifica a função sintáctica dos elementos destacados de cada frase:
a) Brás Ferreira veio do Porto de comboio.
b) Amália e Joaquina estão muito apreensivas, desde ontem.
c) José Félix continua o jogo com as outras personagens.
d) Eles encobriram-lhe a verdade com mestria.

2. Identifica a oração subordinante (principal) e a oração subordinada em cada uma das frases apresentadas:

a) Ele ficou muito contente porque recebeu as cem moedas.
b) Para que o casamento se realize, Duarte não pode ser apanhado em mentiras.
c) Se ele adivinhasse as futuras aflições, não teria mentido tanto.
d) O general Lemos chegou quando eles estavam a almoçar.