22.6.08

Querida dona Felisbela


Bateu à porta devagarinho. Tocou uma vez, quase a medo, e esperou muito composta. Como quem sabe que vai ser vista à lupa antes de ser atendida. Espreitei pela lupa minúscula da porta e abri.
- Bom dia. Não me conhece mas disseram-me que me podia ajudar. Não sei ler nem escrever e gostava de aprender.
Tinha acabado de me levantar da cama, não conhecia aquela senhora baixinha, de cabelos brancos e sorriso infantil, não consegui fixar imediatamente o nome e fiquei ali de porta aberta sem saber bem o que fazer. Convidei-a a entrar e a sentar-se. Não me lembro exactamente em que mês ou ano isto aconteceu, mas sei perfeitamente quando é que ela começou a fazer parte da minha vida.
Felisbela Simas apresentou-se de forma muito delicada, sentada na beirinha da cadeira, as pernas recolhidas para trás e ligeiramente inclinadas sobre o lado (como antigamente se ensinava às senhoras), a carteira pousada no colo e as mãos firmes, entrelaçadas na alça.
Tinha 65 anos, dois filhos homens, dois netos verdadeiros e outro como se fosse e um marido que, embora morto, permanecia vivo no seu coração. Quando falou nele, não pôde conter as lágrimas e foi aquele gesto de avozinha querida que, quando fala do falecido, tira os óculos para limpar o canto dos olhos que me comoveu para sempre.
Não me conhecia, nunca nos tínhamos visto e eu era, na altura, pouco mais velha que os seus próprios netos, mas, mesmo assim, a Dona Felisbela não se importou nada que a visse chorar.
A única coisa que verdadeiramente a consumia era ter atravessado uma vida inteira sem saber ler nem escrever e achar que lhe podia faltar o tempo para aprender.
Disse-lhe que sim, que a ensinava com muito gosto e combinámos um calendário escolar. A primeira aula ficou marcada para a manhã seguinte. (...)
No dia seguinte, a campainha tocou à hora combinada e Dona Felisbela entrou com um sorriso rasgado e o ar mais feliz que eu jamais vi alguém ter. Numa pasta, novinha em folha, trazia um caderno, um lápis, afia, borracha e mata-borrão. Lembro-me do mata-borrão.
(...)
À medida que o tempo passava, fui conhecendo melhor a Dona Felisbela. Entre ditados, cópias e palavras difíceis, pousava o lápis e, num vagar de avó, contava-me histórias da sua vida. Ria, chorava e voltava a sorrir com uma facilidade extraordinária. Limpava as lágrimas, pedia desculpas envergonhada e alisava as folhas do caderno com o mesmo ar infantil com que se apresentou no primeiro dia.
(...)
Contava-me, então, os expedientes que usava para que ninguém desconfiasse que não tinha ido à escola.
- Quando precisava de apanhar um autocarro, fingia que me tinha esquecido dos óculos em casa e pedia às pessoas que estavam na paragem que me dissessem para onde iam os autocarros.
No banco e nas repartições públicas, iludiu a questão aprendendo a assinar o seu próprio nome. Trazia na carteira um cartão onde alguém desenhara o seu nome numa letra impecável que ela, secreta e incessantemente, só copiava até sentir que os rabiscos se pareciam. Não conseguia fazê-lo de cor, mas no dia em que tinha que levantar o cheque da reforma levantava-se mais cedo e treinava-se às escondidas.
Dona Felisbela era uma mulher profundamente generosa e atenta aos outros. (...) As horas que passámos juntas a fazer cópias e ditados foram muito mais do que simples aulas de Português. Foram lições de vida onde, em cada dia, a Dona Felisbela me ensinou a conjugar melhor o verbo amar.

Laurinda Alves, in revista Pública,
19 de Setembro de 1999
(texto com supressões)



I

1. Antes do episódio relatado, Dona Felisbela e a autora desta crónica não se conheciam.
1.1. Explicita como é que este facto se reflecte:
- na forma como Dona Felisbela bate à porta;
- na forma como é recebida pela cronista.

2. "Felisbela Simas apresentou-se de forma muito delicada, sentada na beirinha da cadeira, as pernas recolhidas para trás e ligeiramente inclinadas sobre o lado (como antigamente se ensinava às senhoras), a carteira pousada no colo e as mãos firmes, entrelaçadas na alça."
2.1. Interpreta o significado da postura de Dona Felisbela.

3. Explica por que motivo a autora se comoveu tanto com o facto de a Dona Felisbela ter chorado quando falou do falecido marido.

4. Salienta as razões que levaram Dona Felisbela a bater à porta de uma desconhecida.
5. Embora fosse já avó, Felisbela Simas tinha, frequentemente, atitudes de criança.
5.1. Copia, do texto, fragmentos que o provem.

6. Relata, resumidamente, os expedientes de que esta avó se servia para iludir o seu analfabetismo.

7. "Foram lições de vida onde, em cada dia, a Dona Felisbela me ensinou a conjugar melhor o verbo amar. "
7.1. Explica, por palavras tuas, o conteúdo desta passagem.


II

1. "Não sei ler nem escrever e gostava de aprender. "
1.1. Transforma esta frase complexa em três frases simples.
1.2. Substitui a conjunção copulativa e por outra mais expressiva neste contexto.

2. Copia do texto três diminutivos que pertençam às seguintes classes:
- um advérbio de modo;
- um adjectivo;
- um substantivo.

3. "Limpava as lágrimas, pedia desculpas envergonhada e alisava as folhas do caderno... "
3.1. Identifica o tempo em que se encontram as três formas verbais presentes neste excerto.
3.2. Explica o seu valor, enquanto tempo do passado.
3.3. Reescreve a frase transformando-a em três ordens dadas a Dona Felisbela.


III

1. Reconta, resumidamente, a história que nos é contada nesta crónica, respeitando as seguintes indicações:
- o texto deve ter entre 120 e 140 palavras, deve ser escrito na terceira pessoa e sem recurso ao discurso directo;
- os tempos verbais a usar devem ser do passado;
- a estrutura deve ser a seguinte:
Certo dia...
Embora surpreendida...
No dia seguinte...
À medida que o tempo passava...
Em resumo...