23.6.08

Li hoje quase duas páginas


Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E rí como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;

E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E qje as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Caeiro, O Guardador de Rebanhos, XXVIII



1. Nota-se, no início do poema, uma certa ironia sobre a poesia mística.
1.1. Identifique a justificação do riso do sujeito poético.
1.2. Mostre que há uma atitude antimetafisica de Caeiro.

2. Sentir e ter alma são características do ser vivo.
2.1. Explicite a razão de condenação dos poetas místicos.
2.2. Mostre em que medida a Natureza se deve amar pelo que é.

3. "(...) escrevo a prosa dos meus versos / E fico contente"
3.1. Confronte a atitude expressa por Caeiro nestes versos e a condenação que faz do poeta místico.
3.2. Esclareça a atitude especulativa do poeta que recusa o pensamento.



II

Comente, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, a seguinte afirmação de Nelly Novaes Coelho:

Álvaro de Campos é o poeta moderno da dialéctica fundamental: eu civilizado versus eu poético, tentando conhecer os antinomias latentes no novo ser-forjado-pela-civilização, quando posto em confronto com o Absoluto.