19.6.08

"Despondency" (Desesperança)




Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá-la ir, a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do sul se levantaram...

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida.

Antero de Quental, Sonetos Completos


Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema transcrito, não esquecendo os níveis formal, fónico, morfossintáctico e semântico, mas salientando:

- a relação entre o título e a estrutura anafórica;
-os valores semânticos em "ave" (v. 1), "vela" (v. 5), "alma lastimosa" (v. 9), "nota desprendida"^. 12);
- os valores sugestivos no último terceto, tendo em conta:
• a expressão "deixá-la ir" (v. 12)
• a enumeração "nota [...]" (v. 12), "última esperança" (v. 13), "vida" (v. 14), "amor" (v. 14), "vida" (v. 14)
• o polissíndeto e a pontuação;
- a mensagem que se depreende ao longo do poema;
- a inserção numa das fases ou linhas temáticas da poesia anteriana e as marcas da tendência nocturna em oposição à apolínea.


II

Num texto bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras, disserte sobre o sonho e o desengano da Geração de 70, perfeitamente reflectidos na obra de Antero de Quental, cujos cânticos de amor se mistu-ram à luta pela Liberdade e à decepção.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e trinta e seis palavras, num texto de cento e dez a cento e trinta palavras.

[...] Além de tudo, Antero teceu um excepcional lirismo português com a dialéctica de fé e desespero, de sol e lua, de esperança a debater-se entre uma fé morta e outra a nascer.
António Sérgio dilucida de um modo impressivo a alternação dos dois Anteros, o nocturno e o apolíneo. Mas, sem sombra de dúvida, o que em Antero resiste de poético é mais átono que tónico, mais desistente que combativo.
As Odes Modernas vibram panfietariamente e sem persuasão e fundura poética; elas dão o lamiré de A Velhice do Padre Eterno e da retórica jacobina. A série de sonetos A Ideia articula as alegorias do pensamento antitranscendentalista com uma frouxidão prosaica, apenas, talvez, poetizada no Soneto IV, e raramente a combatividade imanentista atinge verdadeira tensão lírica nas poucas poesias em que se exprime (Mais Luz, Justitia Mater, A Um Poeta, Palavras de Certo Morto). O poeta dos Sonetos é da sombra de um grande sonho inexequível nos termos proudho-nianos em que se vasou.
E talvez Antero se deva considerar, por isso, mais do que tudo poeta, homem cujas ânsias se realizam pelo simples verbo - e nele pela conscientífícação desistente, pelo deixar-se ir ou pelo negrume íntimo que se maldiz (Os Cativos, Os Vencidos, Hino da Manhã, Consulta, etc.).
O revolucionarismo viril parece mais não fazer que elevar a energia potencial do idealismo à máxima altura de onde possa despenhar-se em realização contemplativista, em queda inerte vibrando no verbo. Antero parece ter sido revolucionário e imanentista o quanto necessário para cair em cascata poética de um alto potencial.
Seja como for, a poesia mais persuasiva de Antero é posterior à sua desistência de uma revolução utópica e de um Programa para os Trabalhos da Geração Nova que o entusiasmaram por volta de 1871. Essa desistência lírica cristalizara já antes em torno da Mulher, que lhe deu uma erótica intensa e originalíssima entre nós (Beatrice, Amor Vivo, Visita, Abnegação, Aparição, Mãe). O amor anteriano assume a forma de aspiração indefinida, muito próxima do místico amor neoplatónico; em Antero há, por isso, muito naturalmente, reminiscências de Camões, o nosso grande lírico da erótica platonizante (A. M. C., Tormento do Ideal, Aspiração, Ideal, A Alberto Teles).

Óscar Lopes, Álbum de Família, Ed. Caminho (p. 171)


IV

"Viver não foi em vão, se isto é vida
Nem foi de mais o desengano e a dor."

Antero de Quental

Antero de Quental lutou muito para modificar a sociedade do seu tempo. Num texto bem organizado, expõe as razões pelas quais nunca devemos desistir de lutar pelos nossos ideais, sobretudo pelo amor à vida.