18.6.08

As palavras interditas


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
E preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidade bombardeadas.

Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas (1951)



O título deste poema, que é afinal o título do livro a que pertence, remete imediatamente para um tempo - 1951, regime salazarista - em que a falta de liberdade se estendia às palavras, censuradas, interditas.

Faz a análise interprelativa da poema, considerando os elementos propostos que deverás entender, não como tópicos independentes, mas como aspectos interligados e irradiantes.
• a relação eu-tu (proximidade? distância?);
• a articulação amor/realidade;
• a oposição amor/realidade:
- a realidade nocturna, de «cinza», de «sombra», de «palavras interditas», de «solidão» de «dias quebrados», de «horizontes de cidades bombardeadas»
- o amor, a inocência do «tempo que começa», a noite que «cresce apaixonadamente», as «palavras interditas» secretamente enviadas, a furar o bloqueio;
• o amor; manifesto de luta contra a opressão, o medo e a guerra, pela liberdade;
• o jogo de luz e sombra;
• o carácter fragmentário da linguagem (vozes que se cruzam clandestinas? urgentes?);
• o carácter metafórico da linguagem.