19.6.08

Aparição


Cristina. Está um dia bonito, Cristina. Os campos estalam de fecundidade, os homens lavram as terras, guiando os arados, as cegonhas, que vieram de longe, limpam os ver¬mes com o seu bico comprido. Algumas levantam voo, vão aonde não sei, talvez aos ninhos - que os grandes ninhos delas, de vergas entrançadas, talvez já estejam habitados nas chaminés, nas nervuras secas dos ramos. Correm três passos, abrem as asas e sobem. Ponho-me a olhá-las muitas vezes esticadas como fusos, as grandes asas aber¬tas, esfarrapadas nas pontas. Andam na terra como em andas, articulando as patas mecanicamente como robots. São mulas que puxam as grades, aos arados. Na terra inculta, nas bermas dos caminhos, grandes manchas brancas de malmequeres enfeitam uma memória de graça e de festa. De festa, Cristina, vamos ao Redondo, é dia de Carnaval. Está um dia belo de sol, de luz viva e quente com um assomo de Verão.
- Tu vens comigo, Cristina?
- Não, não vou consigo. Vou com o Alfredo.
Tens um costume de holandesa e eu vejo-te ainda, tão graciosa na tua saia folhada, de barras verticais azuis e brancas, uma blusa de rendas, socos altos, chapéu branco de um tecido rígido com bicos erguidos como um barco ou um templo oriental. Não vais então comigo, vais com Alfredo, com Ana, com o Chico. Eu vou com tua mãe e Sofia: o teu pai não pode ir.
A estrada alonga-se por entre as searas verdes, com manchas, à distância, de cores variadas, amarelas, brancas e roxas, com manchas castanhas das terras lavradas, um castanho húmido de gleba, fecunda. Alfredo vai à frente com o jeep, marcando a mar¬cha, eu atrás com o meu pequeno Volkswagen. Sofia senta-se ao meu lado, apesar de eu lhe sugerir a meios-olhos e palavras que devia ir atrás com a mãe.
- Lindo dia, lindo campo - digo eu em voz alta. - Deve ser a única oportunidade do Alentejo, esta, da Primavera.
- Gosto mais em Agosto - opõe Sofia, olhando em frente.
Terra calcinada, deserto estéril - pensei -, a cor dos restos do incêndio, o teu destino de desastre, Sofia. Sim, entendo. Madame Moura concordou comigo e para isso encostou-se ao nosso banco, onde lhe sinto os braços. Tinha costela do Norte, do Minho, talvez, a água,o verde, o lirismo do que é mimoso e tranquilo. Sofia responde ainda - o Alentejo era trá¬gico, não lírico, só a praga, a blasfémia ardente o exprimia. Alfredo acelera a marcha, já o não vemos. Eu sigo em andamento moderado, trago o carro em «rodagem» ou trago em «rodagem» a minha aptidão de condutor. Mas lá para diante apanhamo-lo enfim: ele esta-cionara a uma sombra. Acolhe-nos à estrada, pergunta-me que volante sou eu. Rochas nuas como ossos afloram aqui e além debaixo de oliveiras, de azinheiras, um cheiro intenso a germinação alastra sobre a gravidez da terra. Distingo sobretudo um aroma a mimosa, esse aroma quente, genesíaco, a força e a liberdade, bebido a haustos fundos e a braços abertos. Alfredo localiza-a adiante, toda copada de verde e oiro. É ele próprio que lhe vai cortar alguns ramos para enfeitarmos os carros. Cristina atira serpentinas do alto de uma seara para a estrada, uma leve brisa ondeia-as para longe, prende-as nos ramos de alguma árvore. Ata depois algumas aos pára-choques dos carros, aos fechos das portas onde se prendem também ramos de mimosas com as suas folhas de renda, os seus cachos de bolas de oiro em pó. E, ovantes assim de festa, retomamos a marcha. O ar vibra nas serpentinas retesas, estala algumas, que ficam para trás enroladas na estrada, vai connosco, com a nossa festa, excitação de boémia e de aventura.

Vergílio Ferreira, Aparição



I

1. "- Lindo dia, lindo campo - digo eu em voz alta. - Deve ser a única oportunidade do Alentejo, esta, da Primavera."
1.1. Recolha uma afirmação que, em síntese e por contraste, melhor explicite a razão de Alberto considerar "única oportunidade".
1.2. Explique o sentido da expressão "esse aroma quente, genesíaco."
1.3. Indique as personagens que melhor aderem à "oportunidade" daquele dia. Justifique essa adesão.

2. Há uma identidade entre a terra (paisagem) e as personagens. No entanto, as reacções são diversas.
2.1. Faça um levantamento dos elementos semânticos que aproximam Sofia do espaço existencial da planície.
2.2. Mostre em que medida há nesta relação uma premonição do destino de Sofia.

3. "[...] um cheiro intenso a germinação alastra sobre a gravidez da terra."
3.1. Demonstre que o processo criador da vida se percebe gradativamente nesta afirmação.
3.2. Identifique os recursos estilísticos presentes na expressão.


II

Em Carta ao Futuro (Vértice, 1958), Vergílio Ferreira afirma:
«Para o homem vulgar (para cada um de nós também, quase sempre) a vida resolve-se numa presença em, num ser o mundo que existe como por si mesmo, sem pensar-se que é através de nós, sem um regresso à vertigem de estarmos sendo nós, daquilo que somos.»

Numa dissertação cuidada e bem estruturada, de cem a duzentas palavras, comente a afirmação transcrita, recordando as suas leituras, mormente sobre Aparição.