23.6.08

Ao Gás


E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos revérberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

[...]

Cesário Verde, O Sentimento dum Ocidental


I

Após uma leitura cuidada, elabore um comentário global do poema transcrito, tendo em atenção os níveis formal, tónico, morfossintáctico e semântico, de modo a, entre outros aspectos, evidenciar:
- a cidade viva onde o grotesco e a decomposição se misturam ao belo e ao salutar;
- a caracterização das figuras femininas e uma certa humilhação;
- o trabalho de construção poética de acordo com a estética parnasiana;
- os sentimentos evidenciados e as sensações sugeridas;
- o propósito evidenciado em "Quisera que o real e a análise mo dessem" (v. 18);
- a expressividade da linguagem e os principais recursos estético-estilísticos.


II

Considere o juízo crítico a seguir transcrito e, entre duzentas e trezentas palavras, elabore um comentário bem estruturado, fundamentando-se em leituras realizadas.
Fernando Pessoa em Páginas Sobre Literatura e Estética (p. 126) afirma que Camilo Pessanha «ensinou a sentir veladamente; descobriu-nos a verdade de que para ser poeta não é mister trazer o coração nas mãos, senão que basta trazer nelas a sombra dele.»


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por quatrocentas e dezassete palavras, num texto de cento e vinte e nove a cento e quarenta e nove palavras.

Para exprimir este mundo, até então realmente desconhecido da poesia, embora não inteira¬mente ignorado de Tolentino - este novo mundo que completa o de Eça à luz de um radicalismo plebeu que o romancista não sentia -, Cesário renovou completamente a estilística tradicional da nossa poesia. Experimentou uma imaginária por vezes muito feliz. Introduziu no verso o processo queirosiano de suprir pelo adjectivo ou pelo advérbio uma relação lógica extensa, de imediatizar, pela surpresa da relação verbal, uma sugestão que morreria se se desdobrasse logicamente: «quando passas, aromática e normal»; «cheiro salutar e honesto ao pão no forno»; «pés decentes, verdadeiros»; «eu tudo encontro alegremente exacto»; «amareladamente, os cães parecem lobos»; etc. A par disto, Cesário consegue valorizar poeticamente o vocabulário e o tom de fala mais correntios na linguagem coloquial urbana embalando o leitor num ritmo que ondula entre a atenção ao pormenor e um abrir de horizontes, entre a sátira ou a degradação, que nos oprimem, e um relance de beleza real, que nos expande.
[...]
A coragem de assumir atitudes tidas como prosaicas não deixa de consentir muitos momentos frouxos, mas o que melhor distingue Cesário é o dom de chegar a percepções surpreendentes como estas: «Um parafuso cai nas lajes, às escuras»; pormenor que só por si denuncia o fundo acústico rarefeito da cidade anoitecida e despovoada; «e os olhos de um caleche espantam-se sangrentos»; «e o sol estende, pelas frontarias,/seus raios de laranja destilada», imagem que Pablo Neruda redescobriria ao falar também do sol lisboeta. Por outro lado, a Lisboa de Cesário, não apenas se diferencia nitidamente da Cidade baudelairiana, como ganha dimensões históricas: o poeta adivinha nas burguesias solteiras que tocam piano o mesmo histerismo das antigas freiras, também condenadas a uma estéril vida solteira por falta de noivos socialmente idóneos; de vez em quando dá a sentir, nas sombras de um templo ou dos arruamentos estreitos, o peso secular de tradições clericais redivivas; e os seus calceteiros talvez se inspirem nos de. um célebre quadro de Courbet, mas denunciam, como em geral os seus operários urbanos e a própria paisagem ainda suburbana, as origens rurais de que a Capital estava ainda a surgir. E, além disso, há em certos passos uma aflitiva ânsia de viver vidas alheias, presentes, passadas, futuras: o toque de grades prisionais ao sol-pôr é um «som/que mortifica e deixa umas loucuras mansas»; toda a panorâmica vespertina, actual e histórica, de Lisboa em O Sentimento dum Ocidental, afina, logo na primeira estrofe, por «um desejo absurdo de sofrer» [...]

António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa