11.5.08

Uma Prenda inesperada


Numa grande cidade onde as ruas eram compridas que pareciam não ter fim e os prédios tão altos que as antenas da televisão nos telhados quase tocavam nas nuvens e onde os automóveis, camionetas, autocarros, motas e bicicletas corriam em longas, longas filas, e onde as pessoas formigavam apressadamente para cá e para lá, vivia num bairro pobre, num sexto andar, porta 5, o pequeno Miguel com a mãe.
A mãe passava oito horas por dia numa fábrica de gabardinas a pregar botões. Nessas horas Miguel ficava sozinho em casa ou descia à rua para tomar parte nas brincadeiras dos meninos. Mas como era franzino e se cansava depressa, sentava-se então na borda do passeio a desenhar, com um pedacito de giz, figuras sobre o pavimento. Ansiava por um amigo que como ele gostasse de conversar, de contar histórias e de escutar histórias e que também não quisesse andar todo o tempo em corridas, a soltar gritos e a dar tiros com pistolas de plástico. Mas como ninguém se mostrasse disposto a juntar-se-lhe, ele regressava ao seu andarzinho, sentava-se à janela e olhava para as numerosas janelas do prédio em frente.
Certo dia, quando o Miguel se encontrava sentado na borda do passeio a desenhar as suas figuras sobre o pavimento, parou diante dele uma mulher que lhe estendeu uma caixa.
- Tenho-te visto a desenhar nas pedras da rua, disse. Toma lá esta caixa de tintas. O meu marido gostava de pintar, mas morreu e as tintas já não servem a ninguém em minha casa. Pode ser que te dêem prazer.
Depois passou-lhe amavelmente a mão pela cabeça e seguiu caminho.
Miguel abriu a caixa e olhou surpreendido para as várias filas de bisnagas, ordeiramente alinhadas. Espremeu um pouco de tinta espessa dalgumas delas para o interior da tampa. Depois pegou no pincel pousado numa canelura, virou-o entre os dedos e sentiu-os estremecer como se o pincel os electrizasse.
"Quero pintar", pensou, "quero pintar já!"
Correu à papelaria da esquina e pediu uma grande folha de papel.
- Tu tens dinheiro para pagar?, perguntou o empregado.
Miguel remexeu nos bolsos e desenterrou dum deles uma moeda:
- Dá para pagar uma folha de papel?
- Até dá para uma folha das muito grandes, respondeu o empregado.
Radiante, Miguel pediu que lhe vendesse uma folha muito grande e branca.
Chegado a casa, estendeu a folha no chão. Mas como ela deslizava dum lado para o outro e não havia maneira de se deixar ficar no mesmo sítio, Miguel revolveu a gaveta do guarda-louça e entre uma série de papelinhos, tubinhos, ganchos de cabelo e pregos desencantou algumas tachas com que fixou a folha ao chão. E encheu um copo de água para lavar o pincel. Depois começou a pintar.

Ilse Losa, O Expositor



1.Indica o nome do autor e o nome da obra de onde foi extraído o texto.

2.Localiza a acção no espaço.

3.Como classificas o narrador, quanto à sua participação? Justifica a tua resposta.
3.1 "... motas e bicicletas corriam em longas, longas..."
Identifica o recurso expressivo contido na frase.
3.2 Retira do 1º parágrafo:
Um numeral ordinal
Um numeral cardinal
Um nome próprio
Um nome comum

4.Como é que o Miguel ocupava o seu tempo, enquanto a mãe trabalhava na fábrica?

5."... com um pedacito de giz...".
5.1. A palavra pedacito pertence à classe dos nomes.
Indica:
Subclasse
Grau
5.2. Classifica a palavra, quanto à sua formação:

6.Um dia, o Miguel foi surpreendido por uma senhora que lhe ofereceu uma prenda. Diz que oferta foi essa.

7. Indica o tempo e o modo das seguintes formas verbais:
Pediu
Vendessem

8.Descreve a reacção do Miguel, depois de ter aberto a caixa.

9."... quero pintar já!"
9.1Diz qual o tipo e qual a forma da frase:
9.2. Classifica as palavras, quanto à acentuação.
Quero


10."Uma senhora ofereceu uma caixa ao Miguel."
Menciona as funções sintácticas que se encontram na frase.

11.O menino comprou uma folha de papel.
11.1. Com que objectivo?
11.2. Como se sentiu ao fazer essa compra?

12."Era uma folha muito grande."
12.1. Em que grau se encontra o adjectivo?
12.2. Rescreve a frase com o adjectivo no grau superlativo absoluto sintético.

13.Imagina a conversa que o Miguel teve com a sua mãe, quando ela chegou a casa (não esqueças de utilizar a pontuação adequada ao diálogo).

un-cadeau-surprise_adna-mor.jpg