14.5.08

Não te amo


Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, Folhas Caídas, 1853



I

1. Explicite o assunto do poema.

2. Diga por que razão é que o poeta não pode amar.

3. Explique em que medida é que o poeta se culpabiliza pela sua impossibilidade de amar.

4. Comente as duas concepções do amor presentes no poema.

5. Identifique dois recursos de estilo presentes no poema e justifique o seu emprego.

6. Em que corrente literária se integra o poema «Não te amo»? Justifique a sua resposta expondo algumas das características dessa corrente literária.

7. Explique a formação das seguintes palavras: forçado e indigno.

8. Dê um sinónimo de cada uma das seguintes palavras: jazigo e fero.

9. Faça o levantamento das conjunções existentes na última estrofe do poema.

9.1. Construa uma frase complexa servindo-se de duas das conjunções que encontrou.


II

Relacione a contraditória concepção do amor nas Folhas Caídas de Almeida Garrett com a concepção veiculada por Luís de Camões nos sonetos.