19.5.08

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!

MATILDE: É o melhor dos amigos, António.
SOUSA FALCÃO: Nem isso sou! Só é digno de ser amigo de alguém quem de si próprio
é amigo, Matilde, e eu odeio-me com toda a força que me resta.
Fosse eu digno da ideia que de mim mesmo tinha, e estava lá em baixo, em S. Julião da Barra, ao lado de Gomes Freire, esperando a morte...
Quando os justos estão presos, só os injustos podem ficar fora das cadeias e eu, Matilde, vendi-me para estar, agora, aqui, a vê-lo morrer.
As ideias de Gomes Freire são também as minhas, mas ele vai ser enforcado -e eu não.
Os motivos que os governadores tiveram para prendê-lo, também os tiveram para me prenderem a mim, mas a ele prenderam-no -e a mim não.
Faltou-me sempre coragem para estar na primeira linha...
Durante estes meses, duas vezes dei comigo à berma de lhe chamar louco, para desculpar a minha própria cobardia.
Há homens que obrigam todos os outros homens a reverem-se por dentro... É por mim que estou de luto, Matilde!
Por mim...
MATILDE: ... Isto é o fim, António...
Aceitou o inevitável. SOUSA FALCÃO: É o fim... Quando virmos, lá em baixo, o clarão da fogueira, já ele morreu...
MATILDE: O clarão da fogueira! Quando o virmos, já ele esta aqui ao pé de nós! Foi para o receber que eu vesti a minha saia verde!
(Pausa)
Vem dizer-nos adeus, António, vem abraçar-nos pela última vez. Nunca partiu para uma batalha sem se despedir de mim e, agora, que se acabaram as batalhas, vem apertar-me contra o peito! [...]
A partir deste momento os gestos e as palavras de Matilde são quase infantis. Está a despe-dir--se do homem que amou e fá-lo com uma ternura infinita e uma dignidade que a nin-guém passa despercebida.

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!



I

1. Enquadre o excerto transcrito nas estruturas externa e interna da obra a que pertence.

2. "[...] e eu odeio-me com toda a força que me resta."
2.1. Estabeleça a relação que existe entre o sentimento de ódio e este paralelismo antitético:
- "os justos [...] os injustos"
- "[...] ele vai ser enforcado -e eu não."
- "[...] a ele prenderam-no -e a mim não."
2.2. Explicite, pela citação, a metáfora presente em "Épormim que estou de luto, Matilde!"

3. Traduza o significado do símbolo com que a fogueira se identifica.

4. Diga em que medida a prosódia torna verdadeiramente expressivas as falas de Matilde.

5. "[...] agora, que se acabaram as batalhas [...]"
5.1. Comprove que Gomes Freire de Andrade nem perdeu as batalhas nem perdeu a guerra.

6. O vocativo está disperso ao longo do texto.
6.1. Refira-se ao papel que desempenha no diálogo entre as personagens.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, comprove que a afirmação seguinte bem pode aplicar-se à obra Felizmente há Luar!.
Luís de Sttau Monteiro, numa entrevista que concedeu ao Jornal de Letras, afirmou: «Para mim há uma coisa sagrada: ser livre como o vento.»