19.5.08

Joana (Condessa da Flandres)


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Joana escolheu o vestido azul e uma fieira de pérolas para se enfeitar.
«Logo à noite hei-de ser a mais bonita», pensou. «Até o próprio rei ficará admirado quando eu entrar no salão.»
Contente consigo própria, chamou a aia para que lhe penteasse os cabelos com um pente de ouro fino. Depois mandou vir perfumes e escolheu demoradamente.
— Este é muito forte! Este é muito fraco! Prefiro um que cheire a flores silvestres…
Ansiosa, agitada, encharcou o pescoço, as mãos, os braços, quase manchando o vestido.
A aia sorria complacente.
— Esteja quieta, menina. Assim não consigo penteá-la.
— Estou bonita?
— Está linda. Mas diga-me cá, a que se deve tanto entusiasmo?
— Hum… é por causa do baile.
— Ora, ora! Desde que chegámos a Paris há bailes e saraus todas as noites. O rei Filipe Augusto faz questão de ver a corte muito animada. Está-me a parecer que o motivo é outro!
Joana corou e baixou os olhos. Não queria confessar a verdade, mas o seu coração alvoroçava-se só de pensar no príncipe português que aparecera há pouco vindo de terras longínquas e por quem todas as damas suspiravam apaixonadíssimas.
Claro que a aia sabia isso muito bem. À cautela até fizera algumas investigações por conta própria.
O jovem dizia-se filho de um tal rei D. Sancho I de Portugal. Por que teria vindo para tão longe da corte de seu pai? Só para conhecer mundo?
(…)
De facto tratava-se de um príncipe que decidira viajar para satisfazer a sua curiosidade e desejo de aventura. Todos os que lidavam com ele só tinham a dizer bem.
Gabavam-lhe a inteligência, a bondade, as boas maneiras.
Podia portanto deixar que a sua menina o cativasse. Se queria casar com ele, decerto casaria mesmo, porque nenhum fidalgo digno desse nome virava costas à linda e riquíssima condessa da Flandres. Muitos já tinham tentado pedi-la em casamento, mas até à data Joana preferira continuar solteira. Agora o caso mudara de figura! Bastava olhar para ela e qualquer pessoa ficava a saber o que lhe ia na alma.
— Espero que sejam muito felizes e tenham muitos meninos para eu cuidar!
— O que é que estás a dizer? — perguntou Joana, fazendo-se desentendida.
A aia não respondeu. Limitou-se a abanar a cabeça e sorriu, carinhosa como sempre.
— Vá lá, não se atrase. São horas de descer ao salão.
Na corte de Filipe Augusto as festas eram sumptuosas. Havia músicos, jograis, bailarinas. Às vezes cantava-se e dançava-se até de madrugada.
Fernando bendizia a hora em que se lembrara de ir para Paris. Fora muito bem recebido, o que não era para admirar sendo filho de rei. Mas sentia que o apreciavam, que gostavam dele. As mulheres então, perdiam a cabeça! Riam-se de tudo o que dissesse, lançavam-lhe olhares talvez demasiado directos e divertiam-se, fingindo-se incapazes de lhe pronunciar o nome. Mas só podia tratar-se de brincadeira. Um nome tão simples!
De qualquer forma, tinham graça a carregar nos «rr». Em vez de Fernando diziam «Ferrand».
— Pois seja! Não soa mal! Ficarei Ferrand para o resto da vida.
A decisão tinha muito que ver com negócios de amor.
Entre as raparigas casadoiras havia uma que o cativara desde o princípio. Nova, bonita, simpática, vestia-se com elegância em tons suaves. E usava cabelos soltos enfeitados com belíssimas fieiras de pérolas. E o sorriso? Um encanto!
Além de tudo, era riquíssima. O pai desaparecera em combate e ela herdara os condados da Flandres e de Hainaut.
— Precisa de alguém que a ajude a governar as suas terras. Se me quiser, faz uma boa escolha.
Nessa noite, quando a viu entrar na sala e avançar num passo miudinho, gracioso, ficou alvoraçado, porque os olhos de ambos encontraram- se e teve a certeza que o queria, sim. Que o amava.
«Havemos de casar e ser muito felizes!», pensou. Pensou mas não disse porque antes de falar era necessário obter autorização do rei.
No entanto foi-se chegando de modo a ficarem sentados lado a lado. Por baixo da mesa, encostou-lhe o pé. Por cima da mesa, afagou-lhe a mão…
A atmosfera adquiria reflexos dourados!
Quase não trocaram palavra, mas ambos desejavam que o banquete se prolongasse horas a fio.
Que, se possível, nem tivesse fim!


Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada,
Histórias e Lendas da Europa (adaptado)


1. Por que razão Joana queria ser a mais bonita?

2. Por quem estava Joana apaixonada?
2.1. Refere algumas das qualidades do seu apaixonado.

3. Desde que Joana chegou a Paris há bailes e saraus todas as noites.
3.1. Descreve como eram essas festas.

4. Qual a atitude das mulheres em relação ao jovem português?

5. Quais eram os sentimentos do jovem em relação a Joana?

6. Que aconteceu de importante entre o jovem e Joana?

7. Explica a seguinte expressão:
«A atmosfera adquiria reflexos dourados!»

8. Sublinha os adjectivos presentes nas seguintes frases:
a) «Logo à noite hei-de ser a mais bonita.»
b) «Além de tudo era riquíssima.»
8.1 Identifica o grau em que cada um deles se encontra.