21.5.08

Frei Luís de Sousa, Acto II,

CENA XIV
Madalena, Jorge e Romeiro.

(...)

JORGE – Homem, acabai!
ROMEIRO – Agora acabo: sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: "Ide a D. Madalena de Vilhena e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis aqui está vivo por seu mal e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas de há vinte anos que o trouxeram cativo".
MADALENA (Na maior ansiedade.) – Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem... esse homem... Jesus! esse homem era... esse homem tinha sido... levaram-no aí de onde?... De África?
ROMEIRO – Levaram.
MADALENA – Cativo?...
ROMEIRO – Sim.
MADALENA – Português?... cativo da batalha de...
ROMEIRO – De Alcácer-Quibir.
MADALENA (Espavorida.) – Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo dos meus pés?... Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?...
JORGE – Calai-vos, D. Madalena: a misericórdia de Deus é infinita; esperai. Eu duvido, eu não creio... estas não são coisas para se crerem de leve (Reflecte e logo, como por uma ideia que lhe acudiu de repente.) Oh! inspiração divina... (Chegando ao romeiro.) Conheceis bem esse homem, romeiro, não é assim?
ROMEIRO – Como a mim mesmo.
JORGE – Se o víreis..., ainda que fora noutros trajos... com menos anos – pintado, digamos – conhecê-lo-eis?
ROMEIRO – Como se me visse a mim mesmo num espelho.
JORGE – Procurai nesses retratos, e dizei-me se algum deles pode ser.
ROMEIRO (Sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João.) – É aquele.
MADALENA (Com um grito espantoso.) – Minha filha, minha filha, minha filha! (Em tom cavo e profundo.) Estou... estás... perdidas, desonradas... infames! (Com outro grito do coração.) Oh! minha filha, minha filha! (Foge espavorida e neste gritar)


CENA XV
Jorge e o Romeiro – que seguiu Madalena com os olhos, e está alçado no meio da casa, com aspecto severo e tremendo.

JORGE – Romeiro, romeiro! quem és tu?!
ROMEIRO (Apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal.) – Ninguém!

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto II




I

1. Integre o excerto que acabou de ler na estrutura global da obra a que pertence.

2. Descreva o estado de espírito das diferentes personagens.

3. Refira as consequências da chegada do Romeiro.

4. Explicite de que modo é que o fatalismo é uma presença constante no Frei Luís de Sousa.

5. Explique a formação das seguintes palavras: desonradas e espavorida.

6. Identifique no texto duas conjunções.

7. Construa uma frase complexa com as conjunções que encontrou.


II

Redija um texto argumentativo partindo da seguinte afirmação: «A vida muitas vezes reserva-nos surpresas bem desagradáveis».