4.5.08

A mulher misteriosa

A mulher misteriosa

Noites e noites a fio, quase de madrugada, desenrolava-se a mesma cena: um grande automóvel preto – um carro americano de antes da guerra, talvez um De Soto dos anos trinta – parava de repente ao pé de mim. O motorista, fardado de negro, mantinha-se muito hirto no seu lugar; eu não chegava sequer a ver-lhe o rosto. Mais me intrigava aliás o próprio carro, que parecia ter estado debaixo de água – ou ter sido fabricado no fundo do mar -, embora não apresentasse, na carroçaria, nenhum vestígio de humidade. Mas o capot faiscava, na sombra, como no dorso de um cetáceo; o flanco fusiforme dos faróis denunciava não sei que secreto comércio com os peixes; e a porta de trás, que vinha agora de entreabrir-se – sem que ninguém lhe houvesse tocado –, evocava irresistivelmente, pelo crebo (1) palpitar em que ficara, o inquietante mistério de uma guelra.
Dentro, na outra extremidade do banco, reclinava-se um vulto de mulher cingido num vestido de lamé. Era um vestido de noite, de modelo já antiquado, que por inteiro lhe ocultava as pernas e os pés: a partir da cintura, todo fosforescia, como a cauda de uma sereia.
Havia, no porte dessa mulher, qualquer coisa de hierático, e ao mesmo tempi qualquer coisa de irónico, como se quisesse mostrar – por uma espécie de jogo que não chegava a tomar a sério – o reverso daquilo que sentia. Dir-se-ia que se prestara a servir de modelo, diante de um pintor académico, para um retrato muito convencional, apenas com o fim de troçar intimamente do pintor e do retrato, de si própria e da pose que adoptara. Entre os dedos da mão esquerda – que vinha, enluvada de preto, descansar-lhe no regaço – apertava as varetas cerradas de um leque de marfim. A mão direita, igualmente mergulhada numa luva preta de canhão alto, firmava-se no assento do banco. E era tão-só com um gesto negligente desta mão, mas tão-só com a rotação lentíssima do pulso, que me saudava e convidava a entrar, que me apontava o lugar a seu lado. Então, mal eu me sentava, sem um ruído o carro punha-se em marcha.

David Mourão-Ferreira, “Nem tudo é história”, in Amantes e Outros Contos


(1) crebo – frequente, amiudado, repetido
(2) hierático – majestoso e rígido; sagrado


I

1. Atente no primeiro parágrafo do texto.
1.1. Embora o motorista fosse um ser misterioso, o que mais intrigava o narrador era o próprio carro. Explique porquê.
1.2. Copie do texto os vocábulos que fazem parte do campo lexical de mar.
1.3. Evidencie a ligação feita entre algumas partes do carro e elementos marítimos.

2. A partir do segundo parágrafo, o narrador introduz uma personagem feminina.
2.1. De que forma a própria mulher se integra no “ambiente aquático” criado no primeiro parágrafo?
2.2. “Dir-se-ia que se prestara a servir de modelo, diante de um pintor académico, para um retrato muito convencional…”
2.2.1. Faça o levantamento dos fragmentos textuais que justificam esta observação do narrador.

3. A fórmula com que se inicia o texto – “Noites e noites a fio…” – condiciona a sua cons-trução em termos temporais.
3.1. Identifique o tempo verbal predominante no texto.
3.2. Explique a sua relação com a expressão temporal referida em 3.

4. Nos excertos textuais que se seguem, substitua as palavras sublinhadas por outras com igual valor:
_ “E era tão-só com um gesto negligente desta mão, mas tão-só com a rotação lentíssima do pulso…”
_ “Então, mal eu me sentava, sem um ruído o carro punha-se em marcha”


II

Quem era esta mulher misteriosa? Por que razão teria escolhido o narrador para a acompanhar, noite após noite? Para onde iriam?