9.5.08

Aparição


[...] E eis que chega a tua hora, Cristina. Terias tu já dito alguma coisa? Não me lembro. E que dissesses? O que tens a dizer, as palavras não o sabem. Nem o lugar. Nem a hora. Tu não és de parte alguma, de tempo algum, Cristina. Súbita aparição, foste surpresa em tudo para todos. Sim, eu sei. Já o sabia quando te conheci... Cristina viera «fora de tempo». Ninguém a esperava já. O pai errara as «contas» da fisiologia, havia a lei moral - e ela nascera. Os amigos de Moura, risonhamente, quando se referiam à filha, perguntavam-lhe pela «neta»... E ele sorria, inocente, porque a ver¬dade da vida era mais forte do que ele, simples instrumento ou espectador...
- Cristina - disse Moura -, tu agora vais tocar um bocadinho para o senhor doutor.
A miúda fitou-me com os seus olhos azuis, sorriu imperceptivelmente e sentou-se ao piano. Ajeitou a saia â roda do banco e, de mãos imóveis no teclado, apesar do nosso silêncio, esperou ainda pela nossa atenção ou pela sua.
E então eu vi, eu vi abrir-se à nossa frente o dom da revelação. Que eram, pois, todas as nossas conversas, a nossa alegria de taças e cigarros, diante daquela evidência?
Tudo o que era verdadeiro e inextinguível, tudo quanto se realizava em grandeza e plenitude, tudo quanto era pureza e interrogação, perfeito e sem excesso, começava e acabava ali, entre as mãos indefesas de uma criança. Mas tão forte era o peso disso tudo, tão necessário que nada disso se perdesse, que as mãos de Cristina se estorciam na distância das teclas, as pernas na distância dos pedais e toda a sua face gentil, até agora impessoal e só de infância, se gravava de arrepio à passagem do mistério. Toca, Cristina. Eu ouço. Bach, Beethoven, Mozart, Chopin. Estou de lado, ao pé de ti, sigo-te no rosto a minha própria emoção. Apertas ligeiramente a boca, pões uma rugazinha na testa, estremeces brevemente a cabeleira loura com o teu laço vermelho. E de ver assim presente a uma inocência o mundo do prodígio e da grandeza, de ver que uma criança era bastante para erguer o mundo nas mãos e que alguma coisa, no entanto, a transcendia, abusava dela como de uma vítima, angustiava-me quase até às lágrimas. Toca uma vez ainda, Cristina. Agora, só para mim. Eu te escuto, aqui, entre os brados deste vento de Inverno. Chopin, Nocturno n.° 20. Ouço, ouço. As palmeiras balançam no teu jardim, a noite veste-se de estrelas, adormece na planície. Donde este lamento, esta súplica? Amargura de sempre, Cristina, tu sabe-la. Biliões e biliões de homens pelo espaço dos milénios e tu só, presente, a memória disso tudo e a dizê-la...

Vergílio Ferreira, Aparição



I

1. Enquadre o excerto na estrutura interna da obra.

2. Trace o retraio de Cristina, apresentado do ponto de vista do narrador.

3. Justifique o uso dos vocativos.

4. De Cristina, o narrador diz: "Tu não és de parte alguma, de tempo algum, Cristina." E depois: "Cristina viera 'fora de tempo'."
4.1. Descubra as razões do exposto pelo narrador.

5. "Toca, Cristina. Eu ouço. Bach, Beethoven, Mozart, Chopin."
5.1. Refira-se ao papel da música no contexto da obra Aparição.

6. Analise as quatro últimas frases do extracto, salientando a expressividade estilística e o valor evocativo do eu/tu.


II

Componha um texto, de cinquenta a cem palavras, com base neste tema que o remete para a obra Aparição:
«A personagem Cristina em três fases: antes da morte, a morte e Cristina na memória dos outros.»


III

Resuma o texto a seguir transcrito, constituído por trezentas e onze palavras, num outro de noventa e quatro a cento e catorze palavras.


Espaço da modernidade

A narrativa vergiliana que nos ocupa está muito longe da narrativa em sentido estrito de que fala Benveniste, ou seja, a narrativa em terceira pessoa e formas verbais no passado. Perde, por isso, em objectividade, mas ganha em subjectividade. Uma subjectividade que denuncia um sujeito de dimensão arquetípica, mascarado de indivíduo (o sujeito é "persona"). O mesmo dire¬mos do espaço-tempo em que se move: o "sem-espaço-tempo" do Homem em busca de si mesmo no labirinto da sua existência, projectada metonímicamente no espaço criado do próprio discurso. Não admira, por isso, que este discurso assuma também uma "forma especial", no sen¬tido consagrado por Joseph Frank. Essa forma é signo de modernidade porque reflecte a particu¬lar maneira como o homem dos nossos dias vê o mundo e se relaciona com ele.
Deste modo, Vergílio Ferreira torna-se expoente singular, entre nós, da revalorização do espaço, tão característica da modernidade. Mas ele situa-se mais na linha de Proust e de A. Malraux do que de Robbe-Gríllet. O espaço do romance vergiliano, quer seja entendido como cenário da acção e, portanto, categoria do âmbito da "história", quer como "escrita" e, neste caso, realidade coincidente com o discurso, é sempre um espaço profundamente emocionado. Podem os lugares e objectos surgir descontínua e desordenadamente; pode também a escrita acontecer como automatismo aparentemente incontrolável de um sujeito problemático; o certo é que, em Vergílio Ferreira, nem aqueles (lugares e objectos) nem esta (escrita) são meras "coisas" inocentes, reduzidas à nudez fria do seu "mostrar-se", conforme conviria à estética fenomenoló-gica de Robbe-Grillet, levada às últimas consequências. Ao contrário dele, Vergílio Ferreira não desterra o sujeito do seu mundo, porque seria destruí-lo, nem muito menos tende a coisificá-lo absurdamente. Da mesma forma, em relação à escrita. Vergílio Ferreira não desconfia da metá¬fora pela afectividade que projecta nos objectos. Ele sabe que sujeito e objectos coexistem, são até condição de existência mútua.

António da Silva Gordo, A Escrita e o Espaço no Romance de Vergílio Ferreira