23.4.08

Viagens na Minha Terra

Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou. Disseram o que quiseram os faladores que nunca faltam, mas mentiram como mentem quase sempre, enganaram-se como se enganam sempre. Eu não amei a Soledade.
E contudo lembro-me dela com pena, com simpatia... Se eu sou feito assim, meu Deus, e assim hei-de morrer!
Viemos para Portugal; e o resto agora da minha história sabes tu.
Cheguei por fim ao nosso vale, todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal te vi entre aquelas ávores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu só devia ser, se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse digna de juntar-se com essa alma de anjo que em ti habita.
Não é, Joana; bem o vês, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.
Eu sim tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranquila, para as delícias modestas de um bom pai de famílias.
Mas não o quis a minha estrela. Embriagou-se de poesia a minha imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar há-de ser infeliz por força, a que me entregar o seu destino, há-de vê-lo perdido. Não quero, não posso, não devo amar a ninguém mais.
A desolação e o opróbrio entraram no seio da nossa família. Eu renuncio para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quis, a tudo quanto posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me persegue não é obra minha.
Adeus Joana, adeus prima querida, adeus irmã da minha alma! Tu acompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o autor da sua e das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
Eu, que nem morrer já posso, que vejo terminar desgraçadamente esta guerra no único momento em que a podia abençoar, em que ela podia felicitar-me com uma bala que me mandasse aqui bem direita ao coração, eu que farei?
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.
Adeus minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus!

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra




I

1. Este texto transcreve um excerto da carta que Carlos escreveu a Joaninha, principais personagens da novela da Menina dos Rouxinóis.

1.1. Refire-se ao espaço e ao tempo em que os dois primos se conheceram.

2. Explique o sentido da expressão: «Eu sim tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranquila...».

3. Segundo o sujeito da enunciação, foram a sorte e a velha os responsáveis por que não tivesse sido aquilo para que «tinha nascido» e para que foi «criado».

3.1. Mostre a sua concordância ou discordância relativamente a esta questão.

4. Tire conclusões, a partir do último parágrafo, acerca do presente e do futuro de Carlos.

5. Insira este excerto na estética literária subjacente, fundamentando a sua resposta.

6. Refira o tipo de estrutura que o narrador pretendeu dar à novela da Menina dos Rouxinóis.


II

O romance Viagens na Minha Terra apresenta-se com uma estrutura aparentemente desconexa, misturando capítulos de crítica social, impressões de viagens, reflexões e momentos de acção dramática. Refira-se a essa estrutura fundamentando as suas afirmações com exemplos concretos.