17.4.08

Vergílio Ferreira, Aparição


O clarão de um raio incendiou os vitrais. Mas o trovão só já tarde se ouviu, distante, espraiado em grandes rolos, como a notícia de uma praga longínqua. Eu calava-me, indeciso, intrigado, quase enove-lado de vexame. [...] Mas Ana fugia, eu o pensava dolorosamente, eu o via absurdamente, opacamente, como um muro. Uma memória envelhecida de cera, de água benta, de meninos de coro, de beatas, de novenas, de indulgências, de confessionário instalou-se-me no estômago até à náusea. Era impossível que Ana, a bela Ana de olhos de fogo, da graça invulnerável do seu dente irregular, da força plena do seu corpo, ignorasse a degradação que eu lhe estava imaginando. Impossível? Não sei, não sei, não sei: tu casaste com Alfredo...
- Foi aqui que puseram a urna de Cristina - disse ela inesperadamente.
- Cristina? Mas porque é que...
-Aqui...
Depois, transfigurada, falou, falou. Frases desconexas, ideias avulsas, pedaços de um monólogo, de um naufrágio profundo:
- ...E de súbito vê-se que não é possível morrer. Que não é possível! Onde está Cristina, a que era ela, não a que morreu de vestido de holandesa, não a que tocava, ela tocava tão bem... Havia outra, outra, profunda. ELA, eu vi-A, até ao seu olhar, ao seu sorriso, eu vi-A, eu vejo-a, relembro-a, está aqui comigo, conheço-a, só me não pode falar. Sou irmã dela, não eu, que você vê, sou irmã dela EU, que estou comigo, que me sinto ser, eu... Então e eu poderia lá morrer? Sou irmã dela e de você e disto que anda aqui neste silêncio grande, no eco da chuva, dos relâmpagos, dos trovões que ressoam com uma voz que não vem nos livros, que é uma voz dos grandes céus desertos. Como diz você? A voz inicial... Ouço-a, sei-a... Mas isto é muito maior que nós, muito maior, muito maior... Reduzir essa voz à «dimensão humana»? Da dimensão humana são só os ouvidos para a ouvirem. E é preciso não estar distraído. Então a gente assusta-se, a gente sabe que tudo isso existe...
- Não era assim, não era assim...
- Mas ninguém me entende. O meu pai julgou que sim. Não entende. Ele também anda distraído...
- Mas você veio aqui. E 'aqui é o lugar de seu pai...
- Aqui é um lugar em que se ouve bem... Aqui é um lugar que tem uns restos do que é importante. Estas cúpulas, esta hora fechada...
- Mas você «acredita». Em quê?
- Não pretenda que eu diga, não pense que eu diga um nome. Sou pequena e sei que a grandeza existe. Existe onde? Existe. Sinto-o em mim como uma pancada no escuro...

Vergílio Ferreira, Aparição


I

1. Faça uma análise global e cuidada do excerto transcrito, salientando:
- a inserção na estrutura da obra;
- a importância do espaço e do tempo para as personagens;
- o papel da memória, tendo em conta os sentimentos e emoções que são gerados;
- a aparição de uma realidade, de uma "voz inicial" (l. 23) que se não nomeia;
- as pequenas sequências discursivas e a sua articulação.

2. Considere a afirmação de Ana: "Da dimensão humana são só os ouvidos para a ouvirem."
Exponha o seu ponto de vista sobre o interesse que a condição humana possui no universo semântico da obra.


II

Num texto bem elaborado, de duzentas a trezentas palavras, comente a afirmação seguinte tendo em atenção a mensagem de Aparição, onde Alberto procura encontrar-se consigo mesmo.
Em Aparição de Vergílio Ferreira, afirma Alberto a Carolino:
«- A vida é um milagre fantástico - disse eu. - A vida é um valor sem preço.»