11.4.08

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água


Era uma vez uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fadas a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
- Ai, Tia ! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.
- Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro da água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como que por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez:
- Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição, trago tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que eu lhe pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
- Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
- Ainda não; o que eu queria era vê-los.
- Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.


Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



I

1. Divida o texto em momentos e justifique devidamente a sua resposta.
2. Identifique as personagens intervenientes na acção e proceda à sua caracterização global.
2.1. Indique, exemplificando, os processos de caracterização usados no texto.
3. Localize a acção no tempo e no espaço e dê exemplos textuais.
3.1. Relacione a alínea anterior com as características fundamentais do conto tradicional.
3.2. Aponte mais duas características do conto tradicional aqui patentes e explique-
-as devidamente.
4. Mostre que, neste conto, a intervenção de elementos do maravilhoso é apenas aparente.
5. Identifique a moralidade que se pode encontrar neste conto.
6. Dê um título sugestivo ao texto e justifique a sua escolha.


II

Esclareça o sentido da seguinte afirmação:
"Os contos, nas suas formas orais, literárias, permitiram a crianças e adultos conceber estratégias para se posicionarem no mundo e compreender o que os rodeia."


III

Num texto, que não deverá ser extenso, resuma o conto que acabou de analisar.