24.4.08

O Sabor dos Sabores




Era uma vez um rei que tinha três filhas muito lindas.
Um dia, em que estavam a jantar, o rei perguntou à mais velha:
- Diz-me, minha filha, como gostas de mim.
- Gosto tanto do papá como gosto do Sol! A outra respondeu:
- Gosto tanto do papá como gosto dos meus olhos!
E a mais nova disse que gostava tanto do pai como a água do sal.
- Tu dizes-me isso?! És muito ingrata!
E disse-lhe que a havia de mandar matar. Depois chamou um criado e ordenou-lhe que no dia seguinte a levasse ao monte e a matasse.
- Matar a princesa?
- Sim, foi isso que eu mandei! É uma ingrata!
Ao outro dia, quando o criado ia a sair com a filha mais nova, o rei entregou-lhe uma bandeja e uma toalha.
- Aqui me trarás os seus olhos e a sua língua.
O criado teve pena da princesa e lembrou-se de matar uma cadelinha que levava consigo. Assim fez. Arrancou-lhe os olhos e a língua, pôs tudo na bandeja e levou ao rei. A menina, essa, seguiu por uma estrada fora e foi bater à porta de um outro rei e lá perguntou se precisavam de uma criada. Precisavam e ficou.
Passado algum tempo, o rei em casa de quem a princesa servia deu um banquete. E ela lá conseguiu que a comida destinada ao rei, seu pai, também convidado, fosse posta à parte.
Todos os comensais acharam bom o jantar e comeram regaladamente, à excepção do pai dela. O rei anfitrião estranhou e perguntou-lhe se achava má a comida. Ele dizia que só não lhe apetecia comer. Mas quem descobriu tudo foi a princesa quando se apresentou diante do pai e lhe pergun-tou:
- A comida não tem sal, pois não?
- Em boa verdade, fiquei desconsolado porque o que comi não tinha pitada de sal - confessou o rei convidado.
- Ah, meu pai, não se lembra da sua filha mais nova? Não se lembra que eu lhe disse que gostava de si como a água do sal? O pai, lembrando-se, suspirou:
- Ah, minha querida filha, tinhas razão! Perdoa-me! Abraçou-se a ela e nisto caiu para o lado e morreu.

Viale Moutinho, Contos Populares Portugueses


I

1. O texto pode ser dividido em duas partes.
1.1. Diz onde começa e onde acaba cada uma delas.
1.2. Transcreve a expressão que faz a passagem de uma para a outra.

2. Refere o sentimento que leva o pai a mandar matar a filha.

3. Qual é a personagem que age com grande solidariedade?
3.1. Imagina dois adjectivos que caracterizariam muito bem essa personagem.

4. Demonstra que a desconsolação do pai em casa do amigo é, primeiro, de ordem física e, depois, de ordem espiritual.

5. Como explicas o título do texto?

6. Transcreve exemplos dos modos de apresentação do discurso existentes no texto.

7. "E ela conseguiu que a comida destinada ao rei, seu pai, fosse posta à parte."
7.1. Divide as orações desta frase e classifica-as.
7.2. Indica as funções sintácticas da palavra e das expressões sublinhadas.

8. Escreve no discurso indirecto: "- Diz-me, minha filha, como gostas de mim."