18.4.08

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!



UMA VOZ: E ele?
O ANTIGO SOLDADO: Ele?
OUTRA VOZ: O general, homem...
O ANTIGO SOLDADO: Um amigo do povo!
Um homem às direitas! Quem fez aquele não fez outro igual...
Fala com entusiasmo. Vê-se que Gomes Freire é o seu herói.
MANUEL: Se ele quisesse...
(Silêncio.)
Este silêncio é pesado, sente-se. As personagens olham para as mãos e poro os lados. Foram longe de mais e sabem-no. Ainda
têm nos ouvidos o ruído dos tambores, símbolo duma autoridade sempre presente e sempre pronta a interferir.
VICENTE: Se ele quisesse? Mas se ele quisesse o quê? Vocês ainda não estão fartos de gene-rais? Cornetas, tambores, tiros e mais tiros... Bestas!
(Sobe a um caixote.) Tu,José:
(Aponta para um dos presentes.)
Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. Julgas que o Gomes Freire os vai vestir?
Fala muito depressa. Está cada vez mais excitado.
(Aponta paro outro)
E tu, que não comes desde ontem - estás com pressa de ir para a guerra? Julgas que matas a fome com balas? Idiotas! Nenhum de vocês tem um tecto que o abrigue no Inverno, nenhum de vocês tem onde cair morto, mas mal passa um tambor, não há um só que não queira ir atrás dos soldados. Catrapum! Catrapum! Catrapum! pum, pum! - Idiotas!
Faz com as mãos o gesto de quem toca tambor. Olha lá:
(Aponta poro o antigo soldado.)
Se o teu Gomes Freire é tão bom como dizes e se a "rapaziada" lá no regimento é corno tu a descreves, explica lá o que estás a fazer aqui...
Pronuncia a palavra "rapaziada" com sarcasmo. (O antigo soldado encolhe os ombros.)
Não abres a boca? Pois então falo eu!
(Para o grupo)
Falo a/to em tom de triunfo.
Este homern está aqui porque já não serve para nada. Ouviram?
Está aqui porque já não interessa aos generais. O que eles querem é servir-se da gente! Quando um homem chega a velho e já não pode andar por montes e vales, de espingarda às costas, para eles se encherem de medalhas, tratam-no como um pobre fugido à policia: abandonam-no, mandam-no para a porta das igrejas pedir esmola, e que a Virgem se compadeça dele...
(Para o antigo soldado)
À medida que fala vai-se excitando cada vez mais.
Que te dizem eles, os teus generais, os tais com quem te bateste, quando te encontram na rua, miserá¬vel, sem um naco de pão para comer? Sabes o que te dizem? Sabes? Viram-se para as mulheres, e jus¬tificam os cinco réis da esmola, dizendo que te bateste como um valente na campanha do Rossilhão. E tu? Matas a fome com os cinco réis e com a recordação da campanha. Mas eles... eles vão para casa encher a pança! Disso podes estar certo...
O ANTIGO SOLDADO: O Gomes Freire não é desses.
VICENTE: Não é desses... Não é desses... Então de quais é ele? Duns que não existem? É um santo, o teu general...
Fala com escárnio.

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!


I

1. Integre o excerto na estrutura da obra a que pertence.

2. Observe a fala de Manuel: "Se ele quisesse..."
2.1. Identifique o estado de espírito da personagem.
2.2. Refira as razões dessa disposição.

3. Releia as falas de Vicente.

3.1. Identifique o objectivo das suas palavras.
3.2. Aponte os argumentos de que se serve para convencer os seus interlocutores.
3.3. Relacione estas opiniões de Vicente com a atitude que tomará mais tarde em relação ao General.

4. Explicite as funções desempenhadas pelas didascálias neste fragmento da obra.

5. Analise a linguagem e o estilo deste excerto.


II

Produza um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, de acordo com uma das opções seguintes:

A. A figura central é o General Gomes Freire de Andrade "que está sempre presente embora nunca apareça" (didascália inicial) e que, mesmo ausente, condiciona a estrutura interna da peça e o comportamento de todas as outras personagens.
Comprove a veracidade da afirmação transcrita, após o estudo da peça Felizmente Há Luar!

B. No fim do último acto de Felizmente Há Luar!, a personagem Matilde, "companheira de todas as horas" do General Gomes Freire, afirma na altura da execução:
«Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!
Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim...
(Pausa)
Felizmente - felizmente há luar!»
Numa dissertação cuidada, procure reflectir criteriosamente sobre a condição humana e ânsia de liberdade que as lições da história frequentemente veiculam.