21.4.08

Da mais alta janela da minha casa

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo. Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


I

Após uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- a criação poética, temática dominante;
- o fenómeno da criação poética e o fenómeno cultural;
- a dicotomia interior/exterior;
- o paralelismo semântico e seu valor expressivo;
- uma antonímia ao nível dos adjectivos;
- uma escala de valores ao nível dos substantivos/formas verbais.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática da heteronímia com base nestas afirmações de Fernando Pessoa:
«Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.»


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e quarenta e cinco palavras, num texto de cento e cinco a cento e vinte e cinco palavras.

Aqui está: Pessoa, ao forjar Caeiro, partiu duma imagem mental, duma atitude apenas vivida pela inteligência, que pretendeu «ilustrar» mediante uma «personagem» típica. Por isso, apesar de Caeiro, ao falar de si próprio, e Campos, ao evocar o mestre, quererem convencer-nos de que o pensamento de Caeiro é o pensamento ingénuo dum poeta, o fruto verde duma experiência instintiva, a poesia deste nos deixa uma impressão totalmente contrária. Medularmente, Caeiro é um abstractor paradoxalmente inimigo de abstracções; daí a secura, a pobreza lexical do seu estilo. Em regra, ouvimo-lo argumentando, criticando, não transmitindo sensações mas discorrendo sobre sensações. Está então no seu elemento. É sintomático da qualidade do seu espírito que o conteúdo da sensação lhe seja indiferente, que sublinhe o acto de ver, não o objecto da visão: «Vejo.» «Vi como um danado.» Igualmente sintomática a preponderância da vista sobre os outros sentidos, porque a vista é o menos sensual de todos eles, aquele que pode metaforicamente indicar a percepção, a compreensão. Indubitavelmente, Caeiro é sobretudo inteligência. Filosofa contra a filosofia. «Com filosofia - diz ele - não há árvores, há ideias apenas» (pág. 73). Aqui o feitiço volta-se contra o feiticeiro: lendo Caeiro não vemos árvores, ouvimos expor uma doutrina, estamos no domínio do axioma, do silogismo, do geral, e a coisa que serve de exemplo é indefinida: «Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol» (pág. 89). «Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente» (pág. 96).
Em Caeiro o pensador não se limita a contradizer a imagem ideal do poeta, contradiz-se a si próprio. Pondo de lado essa imagem, aceitava-se que os seus versos, gerados sob o signo dialéctico, aquecidos pela intenção polemística, alvejassem pelo combate directo ou pela ironia os homens que interpretam, esquadrinham, fazem metafísica, esquecendo a superfície maravilhosa das coisas, ou seja, o que existe, para tentarem escrutar a essência das coisas, quer dizer, o que não existe, porque a Natureza é só superfície. A lição constante de Caeiro é esta: «O único sentido íntimo das coisas/É elas não terem sentido íntimo nenhum» (pág. 28).

Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Ed. Verbo (pp. 24-26)