7.3.08

Vem sentar-te comigo Lídia

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis, 12-6-1914



1. Analise o poema, tendo em conta os seguintes tópicos:
1.1. a atitude amorosa perceptível no poema;
1.2. as acções propostas pelo eu a Lídia que se desenvolvem a partir das seguintes dicotomias:
* enlaçar/desenlaçar as mãos
* observar/pensar
* observar/aprender
* pensar/aprender
1.3. a navegação de qualqer sentimento extremado;
1.4. a necessidade e a obrigatoriedade de não sofrer:

2. Relacione esta atitude amorosa com:
* as teorias clássicas do amor - dantismo e platonismo, por exemplo;
* o epicurismo e o estoicismo.

3. Releve as marcas de linguagem que, neste poema, conotam R. Reis com uma estética pagã e neo-clássica.