12.3.08

Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor... muito «amor próprio».


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde


I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:
1. Observe a figura feminina retratada no poema.
1.1. Proceda à sua caracterização de acordo com os "outros".
1.2. Infira, pelas palavras do sujeito poético, o carácter desta personagem.
1.3. Explique a posição assumida pelo sujeito poético no último verso do poema.

2. Releia a primeira e a última quadras.
2.1. Mostre como se evidencia a situação de desejo e receio, face ao poder que parece dima¬nar dessa mulher.
2.2. Destaque, com exemplos, a interferência da representação subjectiva na descrição objectiva desta figura feminina.

3. "Chamam-te a bela imperatriz das fátuas" (v. 9)
3.1. Explique o sentido do verso.
3.2. Identifique os recursos estilísticos presentes.

4. Faça uma análise das marcas impressionistas e parnasianas, tendo em atenção as sensações captadas pelo sujeito poético e a construção do poema.


II

Num texto de cem a duzentas palavras, comente a afirmação seguinte, não esquecendo de salientar o poder pictórico de Cesário Verde de traduzir a realidade quotidiana.
«Para escapar à dupla limitação da cidade, Cesário tenta encontrar uma solução social e pessoal atra-vés de uma identificação activa e concreta com o campo.»

Hélder Macedo, Nós - Uma leitura de Cesário Verde