4.3.08

Quer'eu en maneira de proençal



Quer'eu en maneira de proençal
fazer agora un cantar d'amor,
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.

Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a faz, que a fez sabedor
de todo ben e de mui gran valor,
e con todo est'é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bon sen,
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh'outra foss'igual.

Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.


El-Rei D. Dinis (CV 123, CBN 485)



I

1. Identifique o assunto desta cantiga.

2. Justifique o convencionalismo desta cantiga de acordo com os modelos poéticos adoptados e o formalismo da linguagem.

3. Explique o desenvolvimento do assunto através da estrutura da cantiga.

4. De que modo é que o trovador caracteriza a sua «senhor»?

5. Explicite a concepção do amor no género de cantigas a que esta pertence.

6. Faça a análise da estrutura externa (estrofe, métrica e rima).


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Roberto Lopes:

«O culto cavalheiresco da mulher ideal (...) tratava-se de uma convenção limitada a um círculo muito restrito de homens, cada um dos quais se consagrava ao serviço de determinada mulher, não lhe importando proceder em relação às outras como lhe aprouvesse, a começar pela sua própria.»