12.3.08

O Sésamo


Urros, em plena montanha, é uma terra de ovelhas. Ao romper de alva, ainda o dia vem longe, cada loja parece um saco sem fundo donde vão saindo sem parar novelos de lã. Dos postigos das easas, quem olha a rua a essa hora só vê um tapete fofo, movediço, pardo ainda da luz indecisa da manhã. Depois o sol levanta-se e ilumina os montes. E todos eles mostram amorosamente nas suas encostas os brancos e mansos rebanhos que tosam o panaseo macio. A riqueza da aldeia são as crias, o leite e aquelas nuvens merinas que se vão fiando pelo dia fora e à noite se acabam de ordenar. Numa loja de gado, ao quente bafo animal, junta-se o povo todo. Cotiza-se cada uma para a luz de carboneto ou petróleo, e a fiada começa. E no Inverno, nas grandes noites sem fim, que ela abre na terra as largas portas acolhedoras. Há sempre novidades a discutir, namoriscos a tentar, amores que é preciso reacender, e, sobretudo, há o Raul a inventar livros ninguém sabe como, c a lê-los de maneira a fazer chorar as pedras, ou a rebentar um morto de riso.
Naquela noite, o caso era uma história bonita, de uma grande fortuna dentro da barriga de um monte. E a canalha miúda, principalmente, estava deslumbrada. Todos guardavam gado na serra. E a todos tinha ocorrido já que bem podia qualquer penedo daqueles estar prenhe de tesouros imensos. Mas que uma palavra os pudesse abrir — isso é que não lembrara a nenhum.
Da gente miúda que escutava, o mais pequeno era o Rodrigo, vivo, fino como um coral, mas com fama de amalucado. No meio de uma conversa séria, tinha saídas inesperadas e desço n certames. Via estrelas de dia, que ninguém, por mais que fizesse, conseguia enxergar; assobiava modas ainda não ouvidas na terra nem nos arredores; e desenhava no chão a cara de quem quer que fosse, o que era o cúmulo dos assombros. Pequenino, sempre a pegar com os outros e a berrar como um infeliz quando depois lhe batiam, ouvia do seu canto a leitura do Raul, maravilhado e a fazer projectos.
A fiada acabou tarde, com tudo a cair de sono e a lutar para prender na imaginação aquela riqueza oriental soterrada num monte. E de manhãzinha, o Rodrigo, contra o costume, esgueirou-se sozinho com o seu rebanho para a serra da Forca.

MIGUEL TORGA, Novos Contos da Montanha



I

1. Refere as várias fases do dia que são apontadas na descrição da aldeia e confirma cada uma delas com elementos do texto.

2. Caracteriza a paisagem apresentada.

3. Transcreve do texto a frase que indica as várias fontes de riqueza da aldeia.

4. Menciona as formas de ocupação dos serões na aldeia.

5. Comenta a relação que existe entre os habitantes da povoação.

6. Caracteriza, por palavras tuas, a personagem principal.


II

1. Classifica morfologicamente as palavras desta frase:
"[...] eles mostram amorosamente nas suas encostas os brancos e mansos rebanhos [...]".

2. Analisa sintacticamente os elementos dessa oração.

3. Identifica o recurso estilístico que está presente nessa frase e explica o seu emprego.
"E de manhãzinha, o Rodrigo, contra o seu costume, esgueirou-se sozinho com o seu rebanho para a serra da Forca."


III

Imagina e conta o modo como o Rodrigo passou esse dia na serra da Forca.