8.3.08

O caldo de pedra



Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa. Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:
- Se me emprestassem aí um pucarinho?
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas. Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor. Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal. Também lhe deram o sal. Tem-perou, provou, e disse:
- Agora é que com uns olhinhos de couve ficava, que os anjos o comeriam. A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Ó senhor frade, então a pedra? Respondeu o frade:
- A pedra, lavo-a e levo-a comigo para outra vez. E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português


I

1. Os referentes temporais do decorrer da acção surgem traduzidos pela forma verbal da primeira frase do conto.
1.1. Identifique o verbo e o tempo verbal em que se encontra.
1.2. Explique a importância desse tempo na literatura oral e nos contos tradicionais.

2. Analise os modos de expressão das pequenas sequências discursivas.

3. Alente no comportamento da personagem principal e da «gente da casa».
3.1. Caracterize o herói, tendo em conta o ardil imaginado para atingir o seu objectivo.
3.2. Identifique a moralidade que podemos extrair do conto.

4. O texto oral recorre a códigos não linguísticos (cinésicos e visuais, paralinguísticos e outros).
4.1. Mostre como nesta fixação escrita é possível detectar o carácter oral do conto.


II

1. A frase seguinte é agramatical. Dá a versão da frase corrigida:
Das palavras antigas muitas desapareceram e, já sem vida, evocam a formosura do passado. Houveram palavras, todavia, que enfrentaram todas as tempestades.

2. Considere as duas frases que se seguem. Construa uma frase complexa que exprima uma con-cessão, isto è, admita um facto contrário à acção expressa na oração anterior.
Empresto-te este livro interessante por vinte e quatro horas. Sei que este livro interessante me fará falta.


III

Os contos tradicional e popular oferecem-nos pequenas lições para a compreensão do ser humano e da sua vida, ao longo dos tempos.
A partir dos contos estudados, construa um texto expositivo-informativo em que mostre a sua intenção moral.