22.3.08

Mar. Manhã



Early Morning at Box Beach, Tomaree National Park, Port Stephens, New South Wales, Australia Photographic Print by Barnett Ross

Suavemente grande avança
Cheia de sol a onda do mar;
Pausadamente se balança,
E desce como a descansar.

Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã
O glauco'1 seio que adormece,
Arfando à brisa da manhã.

Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar,
Como uma cobra que em serenas
Dobras se alongue a colear.

Unido e vasto e interminável
No são sossego azul do sol,
Arfa com um mover-se estável
O oceano ébrio de arrebol2.

E a minha sensação é nula,
Quer de prazer, quer de pesar...
Ébria de alheia a mim ondula
Na onda lúcida do mar.

Fernando Pessoa, Cancioneiro


1 - verde mar; 2 - luz a amanhecer.


I

Após uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- a delimitação das partes lógicas e respectiva justificação;
- o movimento do mar e as expressões que o veiculam;
- os recursos estilísticos e seu valor expressivo;
- o poema, reflexo do título;
- a características da poesia ortónima de Fernando Pessoa presentes no poema.


II

Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a citação a seguir transcrita com base em leituras sobre o poeta e sobre o contexto literário que o envolve.

«Pessoa transforma a emoção antes estática em emoção-pensada, em pensamento-emoção, ou, ainda, alcança surpreender a íntima identidade que existe entre as sensações e as ideias a que as primeiras estão desde sempre amarradas.»

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por duzentas e setenta e seis palavras, num texto de oitenta e duas a cento e duas palavras.

A Dor de Pensar

A inteligência lembra uma varinha de condão: graças a ela, tudo o que dormia o sono do nada, incluindo o próprio Homem, acorda para a existência. Ser é ser objecto de conhecimento. A mesma varinha, porém, por um uso intenso e persistente, acaba por esvaziar de realidade as coisas, fá-las regressar ao nada donde vieram. É um instrumento de destruição que vitima aquele que o maneja, lhe provoca a dor da «universal ignorância», a sensação de ladear nas trevas, e ao mesmo tempo o cansa, o corrói, mina as condições elementares de felicidade.
Fernando Pessoa foi dos que mais sofreram com o terrível paradoxo. Vocacionado para o exercício exaustivo duma inteligência esquadrinhadora que, na clausura doeu, é vizinha impotente do caos obscuro da vida, e cuja presença vigilante se manifesta até quando a intuição ou a imaginação poéticas alcançam a sua hora, experimentou, a par do orgulho de conhecer afirmando-se contra a voragem, a pena mais frequente de lhe ser inacessível a felicidade dos que não conhecem. O privilégio duma extraordinária lucidez paga-se caro. Quanto mais humano mais desumano. «Elevar é desumanizar, e o homem se não sente feliz onde se não sente já homem» (P. D. E., pág. 131). Pessoa padeceu dramaticamente o suplício da sua grandeza: «O emprego excessivo e absorvente da inteligência - diz ele na carta a Cabral Metello publicada na Contemporânea em Fevereiro de 1923 -, o abuso da sinceridade, o escrúpulo da justiça, a preocupação da análise, que nada aceita como se pudesse ser o que se mostra, são qualidades que poderão um dia tornar-me notável; privam, porém, de toda espécie de elegância porque não permitem nenhuma ilusão de felicidade.»

Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Ed. Verbo (pp. 105-106)