5.3.08

Frei Luís de Sousa, Acto II, Cena I

CENA I
Maria e Telmo.

MARIA (Saindo pela porta da esquerda e trazendo pela mão a Telmo, que parece vir de pouca vontade.) – Vinde, não façais bulha, que minha mãe ainda dorme. Aqui, aqui nesta sala é que quero conversar. E não teimes, Telmo, que fiz tenção e acabou-se.
TELMO – Menina!...
MARIA – "Menina e moça me levaram de casa de meu pai": é o princípio daquele livro tão bonito que minha mãe diz que não entende; entendo-o eu. Mas aqui não há menina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, fiel escudeiro, "faredes o que mandado vos é". E não me repliques, que então altercamos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda... oh! Tão grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectáculo como nunca vi outro de igual majestade!... À minha pobre mãe aterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir e diz que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com fúria infernal... O retrato de meu pai, aquele do quarto de lavor tão seu favorito, em que ele estava tão gentil-homem, vestido de Cavaleiro de Malta com a sua cruz branca no peito, – aquele retrato, não se pode consolar de que lho não salvassem, que se queimasse ali. Vês tu? Ela que não cria em agouros, que sempre me estava a repreender pelas minhas cismas, agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar de meu pai. E eu agora é que faço de forte e assisada, que zombo de agouros e de sinas... para a animar coitada!... que aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fé neles. Creio, oh! se creio! que são avisos que Deus nos manda para nos preparar. E há... oh! há grande desgraça a cair sobre meu pai... decerto, e sobre minha mãe também, que é o mesmo.
TELMO (Disfarçando o terror de que está tomado.) – Não digais isso... Deus há-de fazê-lo por melhor, que lho merecem ambos. (Cobrando ânimo e exaltando-se.) Vosso pai, D. Maria, é um português às direitas. Eu sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquela acção, – que o vi, com aquela alma de português velho, deitar as mãos às tochas e lançar ele mesmo o fogo à sua própria casa, queimar e destruir numa hora tanto do seu haver, tanta coisa do seu gosto, para dar um exemplo de liberdade, uma lição tremenda a estes nossos tiranos... Oh minha querida filha, aquilo é um homem. A minha vida que ele queira, é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não conheci, que o não estimei sempre no que ele valia.

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto II




I

1. Integre o excerto que acabou de ler na estrutura da obra a que pertence.

2. Refira-se à importância que este excerto tem para o desfecho da acção dramática.

3. Descreva o estado psicológico da personagem Maria.

4. A que livro se refere a personagem quando diz «é o princípio daquele livro tão bonito»?

4. Caracterize a personagem Madalena.

5. Diga que funções desempenha a personagem Telmo.

6. Identifique dois recursos de estilo e comente o seu valor expressivo.

7. Atente na seguinte frase: «Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego.»

7.1. Divida e classifique as orações da frase.

7.2. Diga que função sintáctica desempenha a expressão «com sossego».


II

Num máximo de quinze linhas, refira-se à importância da obra Frei Luís de Sousa para a renovação do teatro em Portugal.