26.3.08


Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população com um terror de lebre,
Fugiu da capital como a tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!
Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
(…)
Que de fruta! E que fresca e têmpora.
Nas duas boas quintas bem muradas,
Em que o Sol, nos talhões e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos são resvaladiços)
Desce em socalcos todos os maciços,
Como uma escadaria de gigantes.
[.-.]
Entretanto, não há maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!

Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
Seca o rio! Em três meses de estiagem,
O seu leito é um atalho de passagem,
Pedregosíssimo, entre dois lugares.

Como lhe luzem seixos e burgaus
Roliços! E marinham nas ladeiras
Os renques africanos das piteiras,
Que como aloés espigam altos paus! [...]

Cesário Verde, Nós


1. O poema Nós de Cesário Verde é composto por cento e vinte e oito quadras distribuídas por três partes. Estes extractos permitem reflectir sobre algumas das intenções do Poeta.
1.1. Caracterize os cenários apresentados nestes excertos da I e da II partes.
1.2. Conclua da intenção subjacente à caracterização analisada.

2. Atente no verso 3: "Que esta população com um terror de lebre".
2.1. Explicite o sentido da expressão.
2.2. Mostre em que medida Cesário Verde integra o ser humano nos espaços da cidade e do campo.

3. "Entretanto, não há maior prazer / Do que, na placidez das duas horas, / Ouvir e ver, entre o chiar das noras, / No largo tanque as bicas a correr!"
3.1. Identifique os sentimentos evidenciados e as sensações sugeridas.
3.2. Identifique os recursos estilísticos utilizados.

4. Demonstre a presença da estética parnasiana nos excertos transcritos.



Teste B

Tendo em atenção os aspectos morfossintácticos, tónicos e semânticos, elabore um comentário ao excerto do poema Nós, de acordo com os seguintes tópicos:
- cenários apresentados e intenção subjacente á caracterização analisada;
- intenções do Poeta;
- integração do ser humano nos espaços da cidade e do campo;
- sentimentos evidenciados e sensações sugeridas;
- recursos estilísticos utilizados;
- impressionismo e presença da estética parnasiana.



II

Comente, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, a seguinte afirmação de Massaud Moisés, in A Literatura Portuguesa:

Quase uma despoetização do acto poético, a poesia do quotidiano nasceria da impressão que o "fora" deixa no "dentro" do artista. Por isso, é fácil compreender as suas ligações coincidentes com a pintura impressionista, que procede exactamente do mesmo modo em face da realidade plástica: o artista procura surpreender o "momento" em que os objectos, imersos numa dada relação de luz e sombra, ganham sua inteira individualidade.