10.3.08

Apoteose





Mastros quebrados, singro num mar de Ouro
Dormindo fogo, incerto, longemente…
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...

São tristezas de bronze as que inda choro –
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lajearam-se-me as Ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...

Desci de Mim. Dobrei o manto do Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Odor brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas-pranto...
…………………………………………………..
- Ó pântanos de Mim -jardim estagnado!...

Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Ouro



Após uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- a temática do imobilismo e da paralisia artística;
- a detecção dos vários momentos em que se estrutura o poema;
- os sons nasais e outros sinais tónicos na reflexão do estado de espírito do sujeito poético;
- a oposição passado/presente;
- os neologismos, a pontuação suspensiva e o seu valor expressivo.


II

Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a citação a seguir transcrita com base em leituras da obra do poeta e acerca do contexto literário que o envolve.

«As características da poesia de Sá-Carneiro fazem dele um herdeiro directo do Decadentismo francês e de Baudelaire, a que não ficam alheias as manifestações do Paulismo, do Interseccio-nismo, do Sensacionismo, do Cubismo e do Futurismo, e um precursor do Surrealismo, ao mesmo tempo que uma das maiores vocações poéticas do primeiro quartel deste século.»

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por duzentas e quarenta e cinco palavras, num texto de setenta e duas a noventa e duas palavras.

Apesar do esplendor das imagens arquitecturais e da impressionante modernidade da nomenclatura geométrica, o que se comunica ao leitor é desilusão, confusão e sofrimento. O arquitecto é também um artista: o que produz constitui uma obra de arte, muitas vezes - como no caso das catedrais - uma combinação do esplendor e do mistério, outras - como sucede com os castelos e os paços - uma evocação do passado e do mundo maravilhoso da infância. Contudo, muitas destas imagens são negativas, denotam a frustração experimentada por um homem que tem a consciência da glória, mas que também se dá conta da sua inacessibilidade. As abóbadas são pavorosas, os arcos partidos, os castelos formam parte duma miragem ou desfizeram-se em pó, as arcadas infundem medo, as torres de marfim nada têm que ver com a vida, os campanários são ameaçadores, as casas burguesas e «lepidópteras»; as catedrais ficam por consagrar, não passando aliás de neblina; as colunas são assustadoras, as escadarias nobres estão cobertas de serapilheiras, uma escada de oiro é «descida /Aos pinotes, quatro a quatro» (Po, p. 121) ou é «suspeita e [...] perigosa» (Po, p. 163). É quase impossível não se perder nas galerias, os altares dos templos desagregam-se pela ausência de um deus, os telhados provincianos são repugnantes, as pontes podem ser sinistras ou falsas, as portas muitas vezes estão fechadas e, no fim de contas, até a «torre maravilhosa» (Po, p. 347) não é capaz de atingir o céu. E mesmo as ruínas, tão fascinantes, misteriosas e vagas, não podem ser reconstruídas: só nos momentos de alheamento da feia realidade da vida constituem uma imagem positiva; quando se impõe, como é habitual, o sofrimento, representam um estado de decadência de que nada se pode salvar. E as pontes, dotadas embora de tantos atributos positivos (são pitorescas e típicas de Paris, representam a maneira de atingir um objectivo e às vezes têm conotações místicas, representam a ligação entre duas coisas ou pessoas ou grupos, são o símbolo da passagem do homem pelo mundo), não se revelam seguras: podem ruir, podem conduzir a uma região perigosa, e até, na melhor das hipóteses, atravessar uma ponte comporta certos riscos. Em suma: quase sempre das imagens arquitectónicas transparecem ilusões perdidas e o medo (às vezes de tipo sexual) do autor. Como o arquitecto, o autor-artista trabalha com desenhos e pretende criar a beleza que não morre. As imagens revelam não só que o poeta não pode lograr êxito mas também que tem por vezes consciência disso. A terminologia de carácter geométrico dá mais ou menos a mesma impressão: à primeira vista parece que estimula e excita, mas amiúde é cruel, vertiginosa e desconcertante.

Ramela Bacarisse, «Mário de Sá-Carneiro: a imagem da Arte»,
in Colóquio Letras n.° 75 (pp. 50-51)