27.3.08

Canto III - Inês de Castro


118
"Passada esta tão próspera vitória,
Tornando Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.

119
"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

120
"Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
"Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam:
De noite em doces sonhos, que mentiam,
De dia em pensamentos, que voavam.
E quanto enfim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memórias de alegria.

122
"De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo, e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

123
"Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co'o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?

124
"Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade:
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela com tristes o piedosas vozes,
Saídas só da mágoa, e saudade
Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

125 - Súplica de Inês de Castro ao Rei
"Para o Céu cristalino alevantando
Com lágrimas os olhos piedosos,
Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos;
E depois nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:

126
— "Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento,
Como coa mãe de Nino já mostraram,
E colos irmãos que Roma edificaram;

127
—"Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

128
— "E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vicia com clemência
A quem para perdê-la não fez erro.
Mas se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

129
"Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei:
Ali com o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste." —

130
"Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais, e cavaleiros?

131
"Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

132
"Tais contra Inês os brutos matadores
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha;
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

133
"Bem puderas, ó Sol, da vista destes
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetisses!

134
"Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, coa doce vida.

135
"As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome amores.


Inês+de+Castro+-+Lima+de+Freitas.jpg (image)
I

1- O episódio de Inês de Castro está inserido num dos planos narrativos da obra.
1.1- De que plano se trata?
1.2- Quem narra o episódio de Inês de Castro?
1.3- Quem é o destinatário desta narrativa?

2- Na perspectiva do Poeta, quem é o verdadeiro culpado da tragédia relatada neste episódio?
2.1- Faz o levantamento das palavras com que o Poeta caracteriza esse Amor. Que concluis?

3- O príncipe não está presente, mas há referências a ele.
3.1- Transcreve os versos que o sugerem.

4- Comenta o comportamento do Rei ao longo do episódio.

5- Quais os sentimentos dominantes neste episódio?
5.1- Justifica cada um deles por palavras tuas e através de vocábulos do texto.

6- A apóstrofe e a antítese são recursos estilísticos predominantes no episódio.
6.1- Transcreve dois exemplos de cada recurso e diz qual é a sua importância.


II

1- Explica o sentido dos seguintes vocábulos:
a) pelejar; b) magnânimo; c) hediondo; d) galantear

2- Substitui a parte sublinhada pela forma adequada do pronome pessoal e escreve de novo a frase.
a) Travámos a batalha com todo o fervor.
b) Quando contares a história à tua irmã.
c) A tua presença fez o João feliz.

3- Classifica a seguinte oração subordinada e transcreve a conjunção: “O capitão avisou que não autorizava a saída dos marinheiros mesmo que lhe pedissem de joelhos”.


III


Escolhe um dos seguintes temas e desenvolve-o numa linguagem cuidada.
Tema 1: Imagina que és o príncipe D. Pedro ou a linda Inês e escreve uma carta de amor.
Tema 2: Dá um final diferente ao episódio de Inês de Castro, num texto escrito em prosa.


[Inês+de+Castro+-+Lima+de+Freitas.jpg]


26.3.08


Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população com um terror de lebre,
Fugiu da capital como a tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!
Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
(…)
Que de fruta! E que fresca e têmpora.
Nas duas boas quintas bem muradas,
Em que o Sol, nos talhões e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos são resvaladiços)
Desce em socalcos todos os maciços,
Como uma escadaria de gigantes.
[.-.]
Entretanto, não há maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!

Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
Seca o rio! Em três meses de estiagem,
O seu leito é um atalho de passagem,
Pedregosíssimo, entre dois lugares.

Como lhe luzem seixos e burgaus
Roliços! E marinham nas ladeiras
Os renques africanos das piteiras,
Que como aloés espigam altos paus! [...]

Cesário Verde, Nós


1. O poema Nós de Cesário Verde é composto por cento e vinte e oito quadras distribuídas por três partes. Estes extractos permitem reflectir sobre algumas das intenções do Poeta.
1.1. Caracterize os cenários apresentados nestes excertos da I e da II partes.
1.2. Conclua da intenção subjacente à caracterização analisada.

2. Atente no verso 3: "Que esta população com um terror de lebre".
2.1. Explicite o sentido da expressão.
2.2. Mostre em que medida Cesário Verde integra o ser humano nos espaços da cidade e do campo.

3. "Entretanto, não há maior prazer / Do que, na placidez das duas horas, / Ouvir e ver, entre o chiar das noras, / No largo tanque as bicas a correr!"
3.1. Identifique os sentimentos evidenciados e as sensações sugeridas.
3.2. Identifique os recursos estilísticos utilizados.

4. Demonstre a presença da estética parnasiana nos excertos transcritos.



Teste B

Tendo em atenção os aspectos morfossintácticos, tónicos e semânticos, elabore um comentário ao excerto do poema Nós, de acordo com os seguintes tópicos:
- cenários apresentados e intenção subjacente á caracterização analisada;
- intenções do Poeta;
- integração do ser humano nos espaços da cidade e do campo;
- sentimentos evidenciados e sensações sugeridas;
- recursos estilísticos utilizados;
- impressionismo e presença da estética parnasiana.



II

Comente, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, a seguinte afirmação de Massaud Moisés, in A Literatura Portuguesa:

Quase uma despoetização do acto poético, a poesia do quotidiano nasceria da impressão que o "fora" deixa no "dentro" do artista. Por isso, é fácil compreender as suas ligações coincidentes com a pintura impressionista, que procede exactamente do mesmo modo em face da realidade plástica: o artista procura surpreender o "momento" em que os objectos, imersos numa dada relação de luz e sombra, ganham sua inteira individualidade.

22.3.08

Mar. Manhã



Early Morning at Box Beach, Tomaree National Park, Port Stephens, New South Wales, Australia Photographic Print by Barnett Ross

Suavemente grande avança
Cheia de sol a onda do mar;
Pausadamente se balança,
E desce como a descansar.

Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã
O glauco'1 seio que adormece,
Arfando à brisa da manhã.

Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar,
Como uma cobra que em serenas
Dobras se alongue a colear.

Unido e vasto e interminável
No são sossego azul do sol,
Arfa com um mover-se estável
O oceano ébrio de arrebol2.

E a minha sensação é nula,
Quer de prazer, quer de pesar...
Ébria de alheia a mim ondula
Na onda lúcida do mar.

Fernando Pessoa, Cancioneiro


1 - verde mar; 2 - luz a amanhecer.


I

Após uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- a delimitação das partes lógicas e respectiva justificação;
- o movimento do mar e as expressões que o veiculam;
- os recursos estilísticos e seu valor expressivo;
- o poema, reflexo do título;
- a características da poesia ortónima de Fernando Pessoa presentes no poema.


II

Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a citação a seguir transcrita com base em leituras sobre o poeta e sobre o contexto literário que o envolve.

«Pessoa transforma a emoção antes estática em emoção-pensada, em pensamento-emoção, ou, ainda, alcança surpreender a íntima identidade que existe entre as sensações e as ideias a que as primeiras estão desde sempre amarradas.»

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por duzentas e setenta e seis palavras, num texto de oitenta e duas a cento e duas palavras.

A Dor de Pensar

A inteligência lembra uma varinha de condão: graças a ela, tudo o que dormia o sono do nada, incluindo o próprio Homem, acorda para a existência. Ser é ser objecto de conhecimento. A mesma varinha, porém, por um uso intenso e persistente, acaba por esvaziar de realidade as coisas, fá-las regressar ao nada donde vieram. É um instrumento de destruição que vitima aquele que o maneja, lhe provoca a dor da «universal ignorância», a sensação de ladear nas trevas, e ao mesmo tempo o cansa, o corrói, mina as condições elementares de felicidade.
Fernando Pessoa foi dos que mais sofreram com o terrível paradoxo. Vocacionado para o exercício exaustivo duma inteligência esquadrinhadora que, na clausura doeu, é vizinha impotente do caos obscuro da vida, e cuja presença vigilante se manifesta até quando a intuição ou a imaginação poéticas alcançam a sua hora, experimentou, a par do orgulho de conhecer afirmando-se contra a voragem, a pena mais frequente de lhe ser inacessível a felicidade dos que não conhecem. O privilégio duma extraordinária lucidez paga-se caro. Quanto mais humano mais desumano. «Elevar é desumanizar, e o homem se não sente feliz onde se não sente já homem» (P. D. E., pág. 131). Pessoa padeceu dramaticamente o suplício da sua grandeza: «O emprego excessivo e absorvente da inteligência - diz ele na carta a Cabral Metello publicada na Contemporânea em Fevereiro de 1923 -, o abuso da sinceridade, o escrúpulo da justiça, a preocupação da análise, que nada aceita como se pudesse ser o que se mostra, são qualidades que poderão um dia tornar-me notável; privam, porém, de toda espécie de elegância porque não permitem nenhuma ilusão de felicidade.»

Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Ed. Verbo (pp. 105-106)



20.3.08

Nossa Senhora das Neves




Na nova igreja matriz da antiga praça-forte de Almeida há uma interessante imagem de Nossa Senhora das Neves.
As raízes da lenda remontam a 26 de Agosto de 1810, quando os franceses arrasaram a vila num cerrado fogo de bombas e canhoneio. E as explosões destruíram não só o castelo, abrindo incomensuráveis brechas na muralha como derrubaram a sede da igreja almeidense. Logo depois da destruição da igreja e do castelo, os almeidenses quedaram-se como que órfãos desses dois decisivos sinais da sua identidade. Deambulando entre os escombros, sentiam abatido o orgulho que sempre haviam patenteado. As ruínas levavam-nos a querer proceder ao despertar da cidade traumatizada pela tragédia. Para eles, avultava a ideia de removei os escombros e dar uma nova ordem à cidade em cinzas. Equipas de voluntários prestavam-se a recompor a vila. E uns tempos mais tarde ergueu-se todo o povo que queria salvar a memória da sua terra. Limpar era a palavra de ordem. Para abrir espaço entre as escombreiras, atearam uma boa fogueira com os materiais revolvidos tidos como definitivamente inúteis. E a fogueira crescia, crescia...
De repente, aconteceu. Aconteceu o quê?
Pois um fenómeno testemunhado pelas largas dezenas de voluntários para a limpeza da vila.
Não é que todos olharam estupefactos o céu plúmbeo e escuro e o sol primaveril havia desaparecido como por encanto, dando lugar a um frio cortante e inesperado que se entranhou fortemente nos corpos desabrigados?! Atónitos e perdidos, todos viram cair uma neve alva e gélida, que fez baixar imediatamente as impetuosas chamas do intenso braseiro, acabando por apagá-lo. Petrificados e sem fala, os almeidenses notaram como sobressaía, no meio do amontoado de destroços queimados e fumegantes, uma imagem de Nossa Senhora, pertencente à antiga igreja matriz. A aparição provocou profundo silêncio, mas logo avançaram alguns a recolher a imagem chamuscada. Demorou a regressar à matriz reconstruída de Almeida, pois houve que reconstruí-la, mas ainda hoje lá a podemos ver como ilustração desta mesma lenda...

VIALE MOUTINHO, Lendas de Portugal


I

1. Considera a acção da lenda «Nossa Senhora das Neves».
1.1. Onde se desenrolam os acontecimentos?
1.1.1 Quando se desenrolam?
1.2. Em que consiste a acção desta lenda?

2. Distingue, na mesma, o fundo histórico do imaginário popular.

3. Justifica o facto de se atribuir a este texto a designação de lenda.

12.3.08

Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor... muito «amor próprio».


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde


I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:
1. Observe a figura feminina retratada no poema.
1.1. Proceda à sua caracterização de acordo com os "outros".
1.2. Infira, pelas palavras do sujeito poético, o carácter desta personagem.
1.3. Explique a posição assumida pelo sujeito poético no último verso do poema.

2. Releia a primeira e a última quadras.
2.1. Mostre como se evidencia a situação de desejo e receio, face ao poder que parece dima¬nar dessa mulher.
2.2. Destaque, com exemplos, a interferência da representação subjectiva na descrição objectiva desta figura feminina.

3. "Chamam-te a bela imperatriz das fátuas" (v. 9)
3.1. Explique o sentido do verso.
3.2. Identifique os recursos estilísticos presentes.

4. Faça uma análise das marcas impressionistas e parnasianas, tendo em atenção as sensações captadas pelo sujeito poético e a construção do poema.


II

Num texto de cem a duzentas palavras, comente a afirmação seguinte, não esquecendo de salientar o poder pictórico de Cesário Verde de traduzir a realidade quotidiana.
«Para escapar à dupla limitação da cidade, Cesário tenta encontrar uma solução social e pessoal atra-vés de uma identificação activa e concreta com o campo.»

Hélder Macedo, Nós - Uma leitura de Cesário Verde



O Sésamo


Urros, em plena montanha, é uma terra de ovelhas. Ao romper de alva, ainda o dia vem longe, cada loja parece um saco sem fundo donde vão saindo sem parar novelos de lã. Dos postigos das easas, quem olha a rua a essa hora só vê um tapete fofo, movediço, pardo ainda da luz indecisa da manhã. Depois o sol levanta-se e ilumina os montes. E todos eles mostram amorosamente nas suas encostas os brancos e mansos rebanhos que tosam o panaseo macio. A riqueza da aldeia são as crias, o leite e aquelas nuvens merinas que se vão fiando pelo dia fora e à noite se acabam de ordenar. Numa loja de gado, ao quente bafo animal, junta-se o povo todo. Cotiza-se cada uma para a luz de carboneto ou petróleo, e a fiada começa. E no Inverno, nas grandes noites sem fim, que ela abre na terra as largas portas acolhedoras. Há sempre novidades a discutir, namoriscos a tentar, amores que é preciso reacender, e, sobretudo, há o Raul a inventar livros ninguém sabe como, c a lê-los de maneira a fazer chorar as pedras, ou a rebentar um morto de riso.
Naquela noite, o caso era uma história bonita, de uma grande fortuna dentro da barriga de um monte. E a canalha miúda, principalmente, estava deslumbrada. Todos guardavam gado na serra. E a todos tinha ocorrido já que bem podia qualquer penedo daqueles estar prenhe de tesouros imensos. Mas que uma palavra os pudesse abrir — isso é que não lembrara a nenhum.
Da gente miúda que escutava, o mais pequeno era o Rodrigo, vivo, fino como um coral, mas com fama de amalucado. No meio de uma conversa séria, tinha saídas inesperadas e desço n certames. Via estrelas de dia, que ninguém, por mais que fizesse, conseguia enxergar; assobiava modas ainda não ouvidas na terra nem nos arredores; e desenhava no chão a cara de quem quer que fosse, o que era o cúmulo dos assombros. Pequenino, sempre a pegar com os outros e a berrar como um infeliz quando depois lhe batiam, ouvia do seu canto a leitura do Raul, maravilhado e a fazer projectos.
A fiada acabou tarde, com tudo a cair de sono e a lutar para prender na imaginação aquela riqueza oriental soterrada num monte. E de manhãzinha, o Rodrigo, contra o costume, esgueirou-se sozinho com o seu rebanho para a serra da Forca.

MIGUEL TORGA, Novos Contos da Montanha



I

1. Refere as várias fases do dia que são apontadas na descrição da aldeia e confirma cada uma delas com elementos do texto.

2. Caracteriza a paisagem apresentada.

3. Transcreve do texto a frase que indica as várias fontes de riqueza da aldeia.

4. Menciona as formas de ocupação dos serões na aldeia.

5. Comenta a relação que existe entre os habitantes da povoação.

6. Caracteriza, por palavras tuas, a personagem principal.


II

1. Classifica morfologicamente as palavras desta frase:
"[...] eles mostram amorosamente nas suas encostas os brancos e mansos rebanhos [...]".

2. Analisa sintacticamente os elementos dessa oração.

3. Identifica o recurso estilístico que está presente nessa frase e explica o seu emprego.
"E de manhãzinha, o Rodrigo, contra o seu costume, esgueirou-se sozinho com o seu rebanho para a serra da Forca."


III

Imagina e conta o modo como o Rodrigo passou esse dia na serra da Forca.



10.3.08

Apoteose





Mastros quebrados, singro num mar de Ouro
Dormindo fogo, incerto, longemente…
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...

São tristezas de bronze as que inda choro –
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lajearam-se-me as Ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...

Desci de Mim. Dobrei o manto do Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Odor brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas-pranto...
…………………………………………………..
- Ó pântanos de Mim -jardim estagnado!...

Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Ouro



Após uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- a temática do imobilismo e da paralisia artística;
- a detecção dos vários momentos em que se estrutura o poema;
- os sons nasais e outros sinais tónicos na reflexão do estado de espírito do sujeito poético;
- a oposição passado/presente;
- os neologismos, a pontuação suspensiva e o seu valor expressivo.


II

Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a citação a seguir transcrita com base em leituras da obra do poeta e acerca do contexto literário que o envolve.

«As características da poesia de Sá-Carneiro fazem dele um herdeiro directo do Decadentismo francês e de Baudelaire, a que não ficam alheias as manifestações do Paulismo, do Interseccio-nismo, do Sensacionismo, do Cubismo e do Futurismo, e um precursor do Surrealismo, ao mesmo tempo que uma das maiores vocações poéticas do primeiro quartel deste século.»

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por duzentas e quarenta e cinco palavras, num texto de setenta e duas a noventa e duas palavras.

Apesar do esplendor das imagens arquitecturais e da impressionante modernidade da nomenclatura geométrica, o que se comunica ao leitor é desilusão, confusão e sofrimento. O arquitecto é também um artista: o que produz constitui uma obra de arte, muitas vezes - como no caso das catedrais - uma combinação do esplendor e do mistério, outras - como sucede com os castelos e os paços - uma evocação do passado e do mundo maravilhoso da infância. Contudo, muitas destas imagens são negativas, denotam a frustração experimentada por um homem que tem a consciência da glória, mas que também se dá conta da sua inacessibilidade. As abóbadas são pavorosas, os arcos partidos, os castelos formam parte duma miragem ou desfizeram-se em pó, as arcadas infundem medo, as torres de marfim nada têm que ver com a vida, os campanários são ameaçadores, as casas burguesas e «lepidópteras»; as catedrais ficam por consagrar, não passando aliás de neblina; as colunas são assustadoras, as escadarias nobres estão cobertas de serapilheiras, uma escada de oiro é «descida /Aos pinotes, quatro a quatro» (Po, p. 121) ou é «suspeita e [...] perigosa» (Po, p. 163). É quase impossível não se perder nas galerias, os altares dos templos desagregam-se pela ausência de um deus, os telhados provincianos são repugnantes, as pontes podem ser sinistras ou falsas, as portas muitas vezes estão fechadas e, no fim de contas, até a «torre maravilhosa» (Po, p. 347) não é capaz de atingir o céu. E mesmo as ruínas, tão fascinantes, misteriosas e vagas, não podem ser reconstruídas: só nos momentos de alheamento da feia realidade da vida constituem uma imagem positiva; quando se impõe, como é habitual, o sofrimento, representam um estado de decadência de que nada se pode salvar. E as pontes, dotadas embora de tantos atributos positivos (são pitorescas e típicas de Paris, representam a maneira de atingir um objectivo e às vezes têm conotações místicas, representam a ligação entre duas coisas ou pessoas ou grupos, são o símbolo da passagem do homem pelo mundo), não se revelam seguras: podem ruir, podem conduzir a uma região perigosa, e até, na melhor das hipóteses, atravessar uma ponte comporta certos riscos. Em suma: quase sempre das imagens arquitectónicas transparecem ilusões perdidas e o medo (às vezes de tipo sexual) do autor. Como o arquitecto, o autor-artista trabalha com desenhos e pretende criar a beleza que não morre. As imagens revelam não só que o poeta não pode lograr êxito mas também que tem por vezes consciência disso. A terminologia de carácter geométrico dá mais ou menos a mesma impressão: à primeira vista parece que estimula e excita, mas amiúde é cruel, vertiginosa e desconcertante.

Ramela Bacarisse, «Mário de Sá-Carneiro: a imagem da Arte»,
in Colóquio Letras n.° 75 (pp. 50-51)





8.3.08

O caldo de pedra



Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa. Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:
- Se me emprestassem aí um pucarinho?
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas. Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor. Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal. Também lhe deram o sal. Tem-perou, provou, e disse:
- Agora é que com uns olhinhos de couve ficava, que os anjos o comeriam. A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Ó senhor frade, então a pedra? Respondeu o frade:
- A pedra, lavo-a e levo-a comigo para outra vez. E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português


I

1. Os referentes temporais do decorrer da acção surgem traduzidos pela forma verbal da primeira frase do conto.
1.1. Identifique o verbo e o tempo verbal em que se encontra.
1.2. Explique a importância desse tempo na literatura oral e nos contos tradicionais.

2. Analise os modos de expressão das pequenas sequências discursivas.

3. Alente no comportamento da personagem principal e da «gente da casa».
3.1. Caracterize o herói, tendo em conta o ardil imaginado para atingir o seu objectivo.
3.2. Identifique a moralidade que podemos extrair do conto.

4. O texto oral recorre a códigos não linguísticos (cinésicos e visuais, paralinguísticos e outros).
4.1. Mostre como nesta fixação escrita é possível detectar o carácter oral do conto.


II

1. A frase seguinte é agramatical. Dá a versão da frase corrigida:
Das palavras antigas muitas desapareceram e, já sem vida, evocam a formosura do passado. Houveram palavras, todavia, que enfrentaram todas as tempestades.

2. Considere as duas frases que se seguem. Construa uma frase complexa que exprima uma con-cessão, isto è, admita um facto contrário à acção expressa na oração anterior.
Empresto-te este livro interessante por vinte e quatro horas. Sei que este livro interessante me fará falta.


III

Os contos tradicional e popular oferecem-nos pequenas lições para a compreensão do ser humano e da sua vida, ao longo dos tempos.
A partir dos contos estudados, construa um texto expositivo-informativo em que mostre a sua intenção moral.

7.3.08

Vem sentar-te comigo Lídia

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis, 12-6-1914



1. Analise o poema, tendo em conta os seguintes tópicos:
1.1. a atitude amorosa perceptível no poema;
1.2. as acções propostas pelo eu a Lídia que se desenvolvem a partir das seguintes dicotomias:
* enlaçar/desenlaçar as mãos
* observar/pensar
* observar/aprender
* pensar/aprender
1.3. a navegação de qualqer sentimento extremado;
1.4. a necessidade e a obrigatoriedade de não sofrer:

2. Relacione esta atitude amorosa com:
* as teorias clássicas do amor - dantismo e platonismo, por exemplo;
* o epicurismo e o estoicismo.

3. Releve as marcas de linguagem que, neste poema, conotam R. Reis com uma estética pagã e neo-clássica.






6.3.08

Lê atentamente as perguntas que se seguem e procura dar uma resposta completa e de forma objectiva.


I

1. Vulgarmente diz-se que os jornais, a rádio e a televisão são órgãos de Comunicação Social. Por-quê?
2. Caracteriza genericamente a linguagem jornalística, referindo o seu objectivo.
3. “Ver, ouvir, sentir, anotar e relatar” eis a função do repórter.
3.1. Diz em que consiste uma reportagem e o que tem de comum com a notícia.
4. O que se entende por crónica jornalística?
4.1. Enuncia as suas principais características.



II

Lê atentamente o texto que se segue:


FILHO DE PICASSO EXPÕE EM PORTUGAL

A obra do escultor catalão Apelles Fenosa é apresentada pela primeira vez em Portugal, numa exposição a inaugurar amanhã, às 18h30, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lis-boa.
Intitulada "Fenosa e o seu amigo Picasso", a mostra resulta de uma intensa amizade entre Arpad Szenes, Vieira da Silva e Fenosa, que mantiveram "ateliers" próximos um dos outros em Montparnasse, em Paris. Além de partilharem interesses, terem amigos comuns e de convive-rem diariamente, os três artistas admiravam-se mutuamente e, como testemunho dessa admi-ração, Vieira coleccionou esculturas de Fenosa, actualmente no Centro Pompidou, em Paris.
Os laços que uniram Vieira e Arpad a Fenosa foram estreitos mas a verdade é que o escultor catalão reconhece em Picasso o maior impulsionador da sua obra. Picasso ajudou-o a realizar exposições, comprou-lhe trabalhos e apresentou-lhe amigos como Max Jacob, Jean Cocteau, Tristan Tzara e Nusch Eluard. Fenosa dizia: "Devo-lhe tudo", "ele fez-me nascer". E Picasso respondia: "Fenosa é o meu filho de mãe desconhecida".
Sempre atento aos artistas espanhóis e catalães que se exilaram em Paris, Picasso teve para com Fenosa uma especial atenção: a amizade entre os dois datou dos anos 20. O pintor exi-bia nos seus "ateliers" as esculturas de Fenosa, como se poderá ver na maioria das fotografias inéditas de Alexander Liberman, Brassai, Gjon Mili ou Edward Quinn, que também compõem a mostra.
Comissariada por Josep Miquel García, da Fundação Apel.les Fenosa, a exposição reúne 77 obras, divididas entre fotografias, gravuras e esculturas, sendo a maior parte destas últimas de pequenas dimensões. Também presente a correspondência inédita entre Fenosa e Picassso, depositada no Museu Picasso de Paris, e uma cronologia desta amizade.

2003-10-14
Correio da Manhã



1. Aponta as várias características presentes no texto e que permitem atribuir-lhe a designação de Notícia.
2. Observa o primeiro parágrafo e diz se estamos perante um lead completo.
Transcreve as respostas às diferentes perguntas que devem ser colocadas.
3. Qual o tipo de título aqui presente?
4. Cria um antetítulo e um subtítulo que acompanhe o título apresentado.








III

1. A notícia que se segue foi publicada no jornal Correio da Manhã de 14 de Outubro, mas foi-lhe retirado o parágrafo-guia. Elabora-o a partir da leitura atenta do corpo da notícia.




Polícia Judiciária investiga
ATAQUE AOS MULTIBANCOS

.....................


A 'técnica' dos criminosos tem sido bem sucedida, com o furto de milhares de euros em dinhei-ro. Daí que a Polícia Judiciária tenha assumido o comando das investigações, na madrugada de ontem, depois do arrombamento de mais uma caixa multibanco, no Intermarché, em Águeda.
As incursões acontecem sempre ao cair da madrugada, a partir de escalamento do telhado, e são normalmente demoradas. Segundo adiantou fonte policial ao CM, "os indivíduos, cujo número não será inferior a quatro, devem ficar pelo menos uma hora, para operarem com as ferramentas que levam uma rebarbadora, com a qual abrem as caixas ATM ou as registadoras".
Ao que o CM apurou, os indivíduos desactivam os alarmes e danificam as câmaras de vigilân-cia, de forma a poderem 'trabalhar' mais calmamente e sem serem identificados.
Na última madrugada, a caixa ATM móvel do Intermarché foi partida, com auxílio de uma rebar-badora, e o cofre interior arrombado. Na passada quarta-feira o mesmo aconteceu num Pingo Doce, em Oliveira do Bairro, e há um mês, num Modelo, em Águeda, onde foram arrombados dois multibancos – um dos quais estava no parque de estacionamento – e furtadas dezenas de telemóveis.



5.3.08

Frei Luís de Sousa, Acto II, Cena I

CENA I
Maria e Telmo.

MARIA (Saindo pela porta da esquerda e trazendo pela mão a Telmo, que parece vir de pouca vontade.) – Vinde, não façais bulha, que minha mãe ainda dorme. Aqui, aqui nesta sala é que quero conversar. E não teimes, Telmo, que fiz tenção e acabou-se.
TELMO – Menina!...
MARIA – "Menina e moça me levaram de casa de meu pai": é o princípio daquele livro tão bonito que minha mãe diz que não entende; entendo-o eu. Mas aqui não há menina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, fiel escudeiro, "faredes o que mandado vos é". E não me repliques, que então altercamos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda... oh! Tão grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectáculo como nunca vi outro de igual majestade!... À minha pobre mãe aterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir e diz que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com fúria infernal... O retrato de meu pai, aquele do quarto de lavor tão seu favorito, em que ele estava tão gentil-homem, vestido de Cavaleiro de Malta com a sua cruz branca no peito, – aquele retrato, não se pode consolar de que lho não salvassem, que se queimasse ali. Vês tu? Ela que não cria em agouros, que sempre me estava a repreender pelas minhas cismas, agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar de meu pai. E eu agora é que faço de forte e assisada, que zombo de agouros e de sinas... para a animar coitada!... que aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fé neles. Creio, oh! se creio! que são avisos que Deus nos manda para nos preparar. E há... oh! há grande desgraça a cair sobre meu pai... decerto, e sobre minha mãe também, que é o mesmo.
TELMO (Disfarçando o terror de que está tomado.) – Não digais isso... Deus há-de fazê-lo por melhor, que lho merecem ambos. (Cobrando ânimo e exaltando-se.) Vosso pai, D. Maria, é um português às direitas. Eu sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquela acção, – que o vi, com aquela alma de português velho, deitar as mãos às tochas e lançar ele mesmo o fogo à sua própria casa, queimar e destruir numa hora tanto do seu haver, tanta coisa do seu gosto, para dar um exemplo de liberdade, uma lição tremenda a estes nossos tiranos... Oh minha querida filha, aquilo é um homem. A minha vida que ele queira, é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não conheci, que o não estimei sempre no que ele valia.

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto II




I

1. Integre o excerto que acabou de ler na estrutura da obra a que pertence.

2. Refira-se à importância que este excerto tem para o desfecho da acção dramática.

3. Descreva o estado psicológico da personagem Maria.

4. A que livro se refere a personagem quando diz «é o princípio daquele livro tão bonito»?

4. Caracterize a personagem Madalena.

5. Diga que funções desempenha a personagem Telmo.

6. Identifique dois recursos de estilo e comente o seu valor expressivo.

7. Atente na seguinte frase: «Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego.»

7.1. Divida e classifique as orações da frase.

7.2. Diga que função sintáctica desempenha a expressão «com sossego».


II

Num máximo de quinze linhas, refira-se à importância da obra Frei Luís de Sousa para a renovação do teatro em Portugal.



4.3.08

Quer'eu en maneira de proençal



Quer'eu en maneira de proençal
fazer agora un cantar d'amor,
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.

Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a faz, que a fez sabedor
de todo ben e de mui gran valor,
e con todo est'é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bon sen,
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh'outra foss'igual.

Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.


El-Rei D. Dinis (CV 123, CBN 485)



I

1. Identifique o assunto desta cantiga.

2. Justifique o convencionalismo desta cantiga de acordo com os modelos poéticos adoptados e o formalismo da linguagem.

3. Explique o desenvolvimento do assunto através da estrutura da cantiga.

4. De que modo é que o trovador caracteriza a sua «senhor»?

5. Explicite a concepção do amor no género de cantigas a que esta pertence.

6. Faça a análise da estrutura externa (estrofe, métrica e rima).


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Roberto Lopes:

«O culto cavalheiresco da mulher ideal (...) tratava-se de uma convenção limitada a um círculo muito restrito de homens, cada um dos quais se consagrava ao serviço de determinada mulher, não lhe importando proceder em relação às outras como lhe aprouvesse, a começar pela sua própria.»