8.2.08

Viagens na Minha Terra

– «E que lhe pareceu?»
– «Bem escrito e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os liberais não tiveram menos.»
– «Errámos ambos.»
– «Errámos e sem remédio. A sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era; – mas muito menos ainda pode ser o que é. O que há-de ser, não sei. Deus proverá.»
Dito isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviário e pôs-se a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais atenção nem pareceu cônscio da minha estada ali.
Sentia-me como na presença da morte e aterrei-me.
Fiz um esforço sobre mim, fui deliberadamente ao meu cavalo, montei, piquei desesperado de esporas, e não parei senão no Cartaxo.
Encontrei ali os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fora da vila à hospedeira casa do Sr. L. S.
Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a sono solto.
Mas eu sonhei com o frade, com a velha – e com uma enorme constelação de barões que luzia num céu de papel, donde choviam, como farrapos de neve, numa noite polar, notas azuis, verdes, brancas, amarelas, de todas as cores e matizes possíveis. Eram milhões e milhões e milhões...
Nunca vi tanto milhão, nem ouvi falar de tanta riqueza senão nas mil e uma noites.
Acordei no outro dia e não vi nada... só uns pobres que pediam esmola à porta. Meti a mão na algibeira, e não achei senão notas... papéis!
Parti para Lisboa cheio de agoiros, de enguiços e de tristes pressentimentos. O vapor vinha quase vazio, mas nem por isso andou mais depressa. Eram boas cinco horas da tarde quando desembarcámos no Terreiro do Paço.
Assim terminou a nossa viagem a Santarém: e assim termina este livro.
Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.
Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar.
Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal!
Que tenha o governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra




I

1. É-lhe apresentado um excerto de Viagens na Minha Terra bem elucidativo de algumas questões sobre as quais o autor pretendeu reflectir.

1.1. Mostre que nele se encontram dois planos narrativos.

2. Identifique os diferentes papéis assumidos pelo narrador nos dois planos narrativos.

3. Interprete o valor simbólico do seguinte enunciado: «eu sonhei com o frade, com a velha e com uma enorme constelação de barões».

4. Registe dois recursos de estilo usados pelo autor e comente o seu valor expressivo.

5. Insira este excerto no movimento literário correspondente, fundamentando a sua resposta.

6. No regresso, o autor refere que «o vapor vinha quase vazio, mas nem por isso andou mais depressa».

6.1. Procure relacionar a morosidade do «vapor» com o ponto de vista de Almeida Garrett acerca do progresso social do país.


II

Recordando o que, ao longo da obra, foi observando sobre o estilo de Almeida Garrett, diga de que modo o autor contribuiu para a modernização da prosa literária portuguesa.