6.2.08

Texto Jornalístico

Os Pais não Têm o Direito de Envelhecer!




ÀS VEZES JULGAMOS QUE NOS APETECE CRESCER, IMAGINE-SE. Julgamos que é hora de nos tornar¬mos independentes dos nossos pais, bolas, já temos idade para isso e, francamente, é ridículo aquele gesto automático de passar a mão pelo cabelo antes de lhes bater à porta ou o desejo de os contradizer em tudo, como se não fôssemos mais do que adolescentes em busca de identidade, i Nesses momentos vemo-nos a deixar tudo e todos, a partir de trouxinha presa num pau, para correr mundo e, finalmente, sermos livres. Vamos comer com as mãos, sempre a sobre-mesa antes da sopa, assoar o nariz à manga, deixar a cama por fazer, as luzes da casa todas acesas, os pratos sujos empilhados no lava-louças. Vamos partir sem dizer a que horas voltamos, nem com quem fomos, nem onde, claro, e, sobretudo, não nos afectará nem um bocadinho que a nossa mãe nos diga que aquela roupa não nos o fica bem, que devemos cortar as unhas ou que está mais do que na hora de sair para a missa ou de ir visitar a tia Anastácia.
Coitadinhos, somos tão ingénuos que julgamos que vamos deixar de ouvir as suas vozes dentro de nós, quais grilos de Pinóquio, que a sua presença física é necessária para que nos comportemos exactamente da forma como pretendem. Ou que façamos tudo ao contrário do que nos disseram, numa desesperada e efémera tentativa de provar a nós mesmos que eles já não «mandam nada».
Mas é tudo mentira. Crescemos por fora porque não temos outra alternativa, assumimos poses de autonomia porque nos dizem (inclusivamente os próprios) que é assim que deve ser. Na prática, impedi-mo-nos de correr para os braços da nossa mãe quando esfolamos um joelho ou cortamos um dedo, apenas porque sabemos que seríamos objecto de escárnio de todos os que nos rodeiam e que temem ser impelidos a imitar-nos.
Por dentro continuamos sempre filhos. E quando os nossos pais ameaçam envelhecer, ou doentes precisam de nós como nós precisámos deles, agimos com a mais perfeita das infantilidades. Bate-mos o pé e recusamos com determinação a troca de papéis.


Isabel Stilwell, Notícias Magazine, 14 de Abril de 2002



I

1. Os textos jornalísticos podem ser informativos, opinativos ou mistos.
1.1 Nesta perspectiva, classifica o texto apresentado. Justifica a resposta.

2. «Julgamos que é hora de nos tornarmos independentes dos nossos pais».
2.1 De que modo é posta em prática a liberdade referida no texto?
2.1.1 Identificas-te com este conceito de liberdade? Justifica.

3. «Mas é tudo mentira.».
3.1 O que é mentira, segundo a autora?
3.2 Interpreta a expressão «Por dentro continuamos sempre filhos.».

4. Refere o registo de língua que se evidencia no texto.
4.1 Apresenta dois exemplos.

5. «Batemos o pé e recusamos com determinação a troca de papéis.»
5.1 Divide e classifica as orações.
5.2 Refere a função sintáctica de «com determinação».

6. Refere o processo de formação dos seguintes vocábulos:
• «lava-louças»
• «envelhecer»


II

• Faz a síntese dos dois primeiros parágrafos.