7.2.08

Pela gravata morre o tímido


De tanto esperar o amor, ele acabou por amar a espera. Era Horácio, de olhos inodoros, vida acanhada e sonhos aguados. Tímido e desencorporado, ele era um subexistente. Os outros arrumavam-se com as namoradas, exercendo-se. Horácio não, solteirava em estado de deserto sensual.
— Às vezes tenho-me pena — suspirava.
Os amigos escutavam-lhe a solidão, compaixonados. Havia que ajudar Horácio a sair de si, desentocar-se. Procuraram uma miúda que aceitasse dar despacho aos suspiros do solitário. Não existia nenhuma. Horácio, diziam elas, é caril sem tempero, carente de vivência. Os amigos não tinham coração a medir: continuaram, indagando toda a garotoria disponível. Nenhuma acolhia a ideia. Até que se lembraram de Marta, a gorducha do bairro. Ela aceitou.
Nessa mesma noite, iriam os dois ao baile no clube ferroviário. No fundo, também ela sofria de solidão. A alma dela corria o risco das ilhas distantes que, para serem vistas, carecem de muita viagem.
A gorda vestiu-se do melhor: foi ao fundo do armário e ajeitou os veludos sobre o imenso corpo. Eram tantas as carnes e tão sobradas do corpo que o vestido parecia curto, perigosa-mente ínfimo.
A menina carnosa olhou-se ao espelho e quase desistiu. A imagem dela excedia o reflexo. Quis ir à balança mas teve medo. Só uma perna chegaria para desmanchar o ponteiro. Sufocada em sua própria redondez, desatou a soluçar. E quando se esperava que gordas lágrimas escorressem, afinalmente, se viu descerem lagriminhas estreitas, em pranto quase do passarinho. Marta quis reagir mas aquela era uma tristeza talentosa: ela ficou, sentada no assento das horas.
No outro canto da cidade, Horácio tentava entender os abismos da vida. A ideia de ir ao baile lhe aterrorizava.
— Mas fazer o quê?
Os outros empurravam-no para fora do medo. Ora, você vai, estão lá as miúdas. O pobre Horácio estremecia só de pensar. As miúdas! Queria explicar os seus temores, dizer que tudo em si permanecia internamente. Era como um prisioneiro que, de tanto cativeiro, acabara receando a liberdade.
— Não sei mexer com miúdas.
Os outros riram-se e forçaram-no a que se vestisse. Horácio era só corpo, desprovido de vontade. Meteram-lhe uma gravata vermelha, ordenando que a usasse assim, sem casaco. Foram pondo ornamentos: óculos escuros, cinto prateado, gola alevantada. Explicaram-lhe alguns «i trejeitos, tiques e gestos próprios de quem quer acabar a noite em dupla horizontal.
Horácio enfrentou-se ao espelho, nem se reconheceu. Tossiu para ver se o espelho lhe devolvia a aflição. Os amigos ironizaram, divertidos com o novo Horácio, parecia um mascarado fora da época.
— São horas, Horácio. Agora, passa a buscar a Marta.
Ele ainda ensaiou barafustar. Quem sabe se ela não está disposta, não será que é demasiado cedo? Mas foi indo, os outros atrás, assegurando-se de que o tipo não escapava no virar da esquina.
Foi subindo as escadas do prédio de Marta. Em cada andar se livrava de um enfeite. No primeiro, tirou os óculos. No segundo, retirou o cinto. No terceiro, ajeitou o cabelo e baixou a gola. Só depois de ter tocado a campainha deu da gravata, essa tira de mau gosto que lhe pesava toneladas. Mas não dava tempo de a tirar, já alguém abria a porta. Era Marta, espreitando uma entrefresta. Horácio, por aquela a nesga, só vislumbrava uma fatia da gorda.
— Sou Horácio, venho buscá-la para a festa.
Marta respondeu que ainda não se aprontara. Pela abertura examinava D candidato, atenta ao detalhe dele.
— Como disse que se chama?
— Sou o Horácio.
— Tem uma gravata muita bonita, Horácio.
Ele entrou e esperou na sala enquanto ela, no quarto, terminava a enfeitação. Esperou, esperou, esperou. Foi nesse enquanto que começou de escutar um soluço: no compartimento ao lado, alguém m chorava. Era um pranto que vinha das profunduras, uma tristeza que atravessava galerias até desabrochar em lágrimas. Horácio empurrou ao de leve a porta do quarto e chamou:
— Marta!
Do outro lado, o silêncio. Ele insistiu e foi entrando mais um pouco. Foi então que uma mãozinha gorda lhe agarrou na gravata e, de um puxão vigoroso, o atirou para cima da cama. Horácio não viu nem ouviu: apenas sentiu um planeta deitando-se sobre o seu corpo desprevenido.
Quem visita o casal, hoje, nota na parede da sala o mais estranho quadro: enquadrada em moldura dourada, uma gravata vermelha.
E ainda agora, tantos anos passados, nos dias de humidade, Horácio se queixa de dores no pescoço, resultado da sua primeira aterrisagem, torcicolado, nos domínios amorosos.

MIA COUTO. Cronicando (1991)


I

1. Leia atentamente o excerto apresentado, da autoria de Mia Couto.

2. Proceda à caracterização física e psicológica de Horácio e Marta.

3. Identifique o recurso estilístico presente na frase: «A imagem dela excedia o reflexo.»
3.1 Comente a sua expressividade.

4. Atente na passagem: «Foi subindo as escadas do prédio de Marta. Em cada andar se livrava de um enfeite. No primeiro, tirou os óculos. No segundo, retirou o cinto. No terceiro, ajeitou o cabelo e baixou a gola. Só depois de ter tocado a campainha deu da gravata, essa tira de mau gosto que lhe pesava toneladas.».
4.1 Demonstre que a linguagem está de acordo com o fluir temporal.
4.2 Classifique o narrador quanto à presença e quanto à focalização.

5. Explique o sentido das seguintes expressões:
a) «Era como um prisioneiro que, de tanto cativeiro, acabara receando a liberdade.»
b) «Horácio era só corpo, desprovido de vontade.»

6. Leia com atenção a seguinte frase: «Horácio, diziam elas, é caril sem tempero»
6.1 Identifique o recurso estilístico utilizado e comente a sua expressividade.

7. Descreva o comportamento dos amigos de Horácio na preparação para o encontro com Marta.
7.1 Analise a evolução do estado de espírito de Horácio.

8. Justifique o título, tendo em atenção os acontecimentos ocorridos ao longo do texto.

9. Considere os seguintes segmentos textuais.
a) «solteirava em estado de deserto sensual.»
b) «Os amigos escutavam-lhe a solidão, compaixonados.»
c) «Havia que ajudar Horácio a sair de si, desentocar-se.»
9.1 Identifique os neolo-gismos existentes nestas frases, comentando a sua expressividade.

10. Atente na seguinte frase: «Marta respondeu que ainda não se aprontara.»
10.1 Identifique e classifique as frases que a compõem.
10.2 Identifique a classe e a subclasse dos vocábulos destacados.

11. Identifique o tipo e a forma das seguintes frases.
a) «— São horas, Horácio. Agora, passa a buscar a Marta.»
b) «— Sou Horácio, venho buscá-la para a festa.»
c) «— Como disse que se chama?»

12. Considere a seguinte frase: «Quis ir à balança mas teve medo.»
12.1 Identifique e classifique as frases que a compõem.
12.2 Identifique as funções sintácticas de «medo» e «teve medo».

13. Comente a seguinte frase: «De tanto esperar o amor, ele acabou por amar a espera.»