13.2.08

O Penedo do Sino



Na pequena aldeia de Bustelo, que, como se sabe, fica no alto do monte a dois passos da Citânia, viveu em tempos idos um cabaneiro que possuía um enorme rebanho de ovelhas, entre as quais existia tam-bém uma preciosa cabrinha leiteira. Rebanho e cabra eram apascentados na serra pela sua única filha, que, diz a lenda, era um encanto de menina.
Aconteceu que, uma manhã, quando a pastorinha foi abrir a porta do redil para sair com o gado a pas-tar, viu sobre um penedo que havia no recinto um enorme sardão. Tinha um ar muito vivo e parecia ter o corpo coberto de pedras preciosas, tal o colorido reluzente das pintas que o cobriam. Nem a pre-sença da menina nem o movimento do rebanho o assustaram e, a partir de então, a pastora nunca mais entrou no redil sem que visse sobre aquela pedra o sardão bonito, que parecia sor¬rir-lhe mansa-mente. Tanto se familiarizaram um com o outro que a pastora acabou por considerá-lo e amá-lo como a cada ovelha do seu rebanho.
Uma vez que estava mungindo a cabrinha, a rapariga viu o sardão aproximar-se como quem tem fome, e pegando numa escudela cheia de leite pô-la à frente do bicho. O sardão sorveu tudo com sofreguidão, ficando tão alegre e satisfeito que a moça compreendeu imediatamente que lhe prestara um grande serviço. Assim, daí para a frente guardava sempre uma escudela de leite para aquele seu amigo.
Estranhamente, porém, a rapariga começou a notar que desde que dava o leite ao sardão a cabra ia secando a pouco e pouco, até ameaçar secar de todo.
E se este facto entristecia a pastora, não parecia, contudo, aborrecer o sardão, que se mantinha alegre como dantes. Ela atribuía essa alegria ao reconhecimento do animalzinho e um dia, falando para ele como era seu costume, disse-lhe:
- Ai, meu bichinho! O leite da cabrinha está quase seco e qualquer dia não tenho com que te alimentar!
Ao ouvir isto, o bicho, em vez de mostrar tristeza, redobrou de corridas até que parou na frente da menina como que sorrindo muito contente.
A determinada altura, o leite secou totalmente. Pela manhã, a pastora dirigiu-se ao redil muito aca-brunhada, pensando no que daria de comer ao sardão nesse dia. Mas, ao abrir a porta ao gado, qual não foi o seu espanto, quando, em vez do sardão, viu sentado no mesmo penedo um rapaz muito bonito e bem vestido. Carinhosamente, ele disse-lhe então:
- Entra, minha amiga, que sou ainda o mesmo! Não tenhas medo! O sar¬dão que alimentavas não era senão eu, um pobre filho da Moirama que seus pais, ao serem expulsos de Portugal, aqui deixaram encantado naquele ani-malzinho. Foram os teus cuidados que quebraram o encanto e cativeiro a que estava votado. Há tempos que esperava a minha liberdade, que estava pen¬dente do leite de noventa dias de uma cabrinha do monte da Citânia. Desde que o meu encanto se quebrou, secou o leite da cabra, mas descansa, que mal eu pise a terra da Moirama o leite há-de voltar. Antes, porém, vou dei-xar-te uma lembrança minha, como testemunho da minha gratidão e amizade. E puxando por um objecto muito brilhante, com forma de um X, que trazia na algibeira, acrescentou:
- Toma isto que te dou. É um talismã com o qual conseguirás seduzir quem tu quiseres. Trá-lo sempre contigo durante três meses, ao fim dos quais devo ter chegado à Moirama, para onde vou partir. Nessa altura, volta aqui e coloca o talismã sobre este penedo, que é o cofre dos meus tesouros. O talismã há-de transformar-se numa chave debaixo da qual encontrarás uma fechadura. Abre, e tudo o que encontrares é teu. Mas atenta bem que até lá tens de guardar segredo absoluto de tudo isto que connosco se passou, senão perderei de novo a liberdade e voltarei à condição de réptil, como me encontraste.
A raparíguinha ainda não conseguira sair do seu espanto quando o mouro desapareceu e a deixou ali de boca aberta e talismã na mão.
Daí por diante, a pastorinha da Citânia tornou-se o enlevo e a sedução de quantos a conheciam. Prin-cipalmente, diz a lenda, não havia rapaz que a olhasse e não ficasse perdido de amores por ela. Isto tornou-se tão escanda¬loso que o pai da rapariga, vendo-a dar tanto nas vistas, a chamou para que lhe explicasse as razões do seu condão. Como resposta, a pastora perguntou: só
- Meu pai, há quantos meses secou o leite da nossa cabra?
- Já lá vão uns quatro meses. Porquê?
- Venha então comigo!
De caminho até ao redil, ela foi-lhe contando tudo o que se passara e que levara ao seu poder encan-tatório junto das pessoas. Por fim, já junto ao penedo onde aparecera o sardão, pousou o talismã e tudo se passou como o mouro lhe predissera.
Abriram a rocha e, maravilhados, encontraram lá dentro uma tão imensa fortuna que passado pouco tempo se tornaram fidalgos e grandes senhores da corte do nosso Rei. Eram grades, arados, cadeados, cordões, grilhões e mea¬das, tudo do mais puro ouro, tudo cravejado de pérolas e diamantes de todas as cores, tudo nunca visto!
O penedo, assim que se viu vazio daquela riqueza, fechou-se para não tor¬nar a abrir-se. Com o tempo, as casas colmaças que existiam sobre ele caíram e desapareceram com o vento, restando apenas, e esperemos que para sem¬pre, o penedo tocando a vazio, oco como um sino e tangendo como ele.

Lendas Portuguesas,
recolha de Fernanda Frazão, Multilar

I

Completa as frases com palavras tuas, a partir de informações textuais.
1.1. Na pequena aldeia de Bustelo, uma linda pastorinha, filha de um cabaneiro,...
1.2. Uma manhã, viu um enorme sardão sobre um penedo quando...
1.3. O sardão era muito bonito e não...
1.4. A pastorinha começou a...
1.5. Quando o sardão bebeu alegremente a escudela de leite, a pastorinha...
1.6. A pastorinha ficou muito triste quando reparou que a cabra...
1.7. O sardão ficou muito contente quando...
1.8. A pastorinha teve uma surpresa: encontrou no mesmo penedo...
1.9. Quebrado o encanto, o...
1.10. O leite da cabrinha tinha secado, mas o...
1.11. Como recompensa, deixou à pastorinha...
1.12. Com ele, a pastorinha poderia...
1.13. A pastorinha deveria trazê-lo consigo...
1.14. Quando a pastorinha o colocasse sobre o penedo, ...
1.15. Para que o encanto não voltasse a repetir-se, a pastorinha deveria...
1.16. O pai da pastorinha, ao ver que todos os rapazes se apaixonavam por ela, ...
1.17. A pastorinha levou o pai junto do penedo e...
1.18. Pai e filha tornaram-se...
1.19. O penedo ali ficou, oco...

2.Concordas com o título da lenda? Justifica a tua resposta.
2.1. Que outro titulo proporias? Justifica a tua opção.

3. De acordo com a "divisão temática da lenda", proposta por Fernanda Frazão, como classificas esta lenda? Justifica.

II

Passa para a forma passiva as frases.
1.1 A pastorinha "viu sobre um penedo um enorme sardão."
1.2 "O sardão sorveu tudo com sofreguidão (...)."
1.3 A pastorinha "guardava sempre uma escudela de leite para aquele amigo."
1.4 "(...) perderei de novo a liberdade (...)."
1.5 Guarda segredo absoluto!
1.6 "Abriram a rocha (...)."
Passa para a forma activa.
2.1 Um talismã foi dado pelo jovem mouro à pastorinha.
2.2 Que o penedo seja aberto por ti!
2.3 O sardão era alimentado pela pastorinha.
2.4 O povo será doravante protegido pela pastorinha.

III

Relembra o final da lenda: "Com o tempo, as casas colmaças que existiam sobre ele caíram e desapareceram com o vento, restando apenas, e esperemos que para sempre, o penedo tocando a vazio, oco como um sino e tangendo como ele".
Imagina que o penedo não tinha ficado vazio, porque dentro dele ainda tinha ficado, escondido, um tio solteirão do jovem mouro. Esse tio, de maus instintos, já preparava uma vingança que teria como vítima a pastorinha, que era, agora, uma dama da corte.
Continua esta ideia, recorrendo à tua criatividade.