10.2.08

Lenda das amendoeiras




Há muito, muito tempo, ainda o Reino dos Algarves não era dos Portugueses, pertencia a região a
um poderoso senhor árabe, conhecido nos mais recônditos pontos do mundo pela sua coragem e rudeza. O seu jugo estendia-se a tão longínquas paragens que dos locais mais estranhos lhe eram trazidas, como escravas, as mais belas mulheres das mais exóticas raças.
Certa vez, entre as escravas chegadas ao Algarve, uma chamou a sua atenção. Era uma menina loira, de faces muito brancas e olhos azuis, de um azul diferente e longínquo, azul quase turquesa. Graciosa e doce, contrastava gritantemente com as mulheres morenas e quase agressivas que mais comummente ali chegavam. E curioso de saber donde lhe vinha a diferença, perguntou:
— Como te chamas, escrava? E donde vens tu?
— Chamo-me Gilda, senhor, e venho lá do norte gelado onde a neve é, eternamente.
— Como vieste aqui parar?
- Ia de viagem com meu pai, um grande guerreiro do Norte, e vossos guerreiros mataram-no.
Sorriu o senhor ante a vitória que tal despojo lhe trazia. E, num gesto que nada mais era do que o prazer de possuir tal mulher, pôs à disposição da escrava todo o seu reino.
Passou o tempo e a menina foi crescendo, Sem que Gilda desse por isso, o seu senhor passava horas a contemplá-la. E tanto c tão longamente olhou que, um dia, fez do objecto a coisa amada. Sendo senhor e dono de tudo o que o rodeava, o árabe decidiu desposar a escrava loira do Norte c fazer dela a primeira mulher entre todas as escravas c concubinas do seu harém. E Gilda, a loira, a escrava, acatou as ordens do seu senhor, ainda que isso lhe custasse a última esperança do seu viver: voltar à terra longínqua onde nascera, ao mundo gelado da sua infância, aos velhos rituais do fogo ardendo, não do céu mas do solo.
Alegre e descuidado como um menino, o árabe começou os preparativos para o casamento, que queria inesquecível. Em breve começaram a chegar presentes c convidados de todas as partes da Terra. E ao azul luminoso do céu juntou-se o colorido dos trajos exóticos dos mais distantes países. Vieram rajás da índia, vestindo túnicas brancas, toucados de turbantes multicolores, cobertos de jóias, sentados em palanques sobre o dorso de elefantes; vieram tuaregues do deserto, vestidos de lã negra, cobertos de areia, sobre camelos pachorrentos; vieram mongóis e chineses, godos da Hispânia, germanos e normandos das terras frias do Norte, suevos louros com seus trajos de gala, príncipes negros da Etiópia, cavaleiros cristãos com elmos rebrilhantes, montados em cavalos de gualdrapas coloridas c bordadas. O reino era pequeno, a multidão muita e todas as ruas eram uma orgia de cor e movimento.
No belíssimo salão de trono do árabe, todo ele colunas de mármore sustendo arcos em ferradura, centenas de bailarinas cobertas com ténues véus dançavam como ser¬pentes ao som de melodias estonteantemente harmónicas, tocadas por menestréis em citaras e alaúdes. Quando as bailarinas tombavam de cansaço, vinham os trovadores cantar cm baladas os feitos heróicos do seu senhor, ou os velhos contadores de histórias entreter os convidados com antiquíssimos e inesquecíveis contos.
No meio de toda aquela alegria, Gilda, porém, não estava feliz. No rosto um esquecido sorriso, nos olhos uma tristeza mais longínqua e azul. Nem cantares nem iguarias lhe alegravam o olhar c o árabe inquietava-se por saber o motivo. Mas nem Gilda sabia explicar o porquê do seu sentir. Estava assim, triste do fundo do corpo, nostálgica desde a sua alma. De tudo isto ela sabia apenas que se sentia enamorada do seu senhor e com mais razões para alegrias do que tristezas, mas não conseguia evitar aquela estranha inquietação.
Não conseguindo mostrar uma alegria que não tinha, decidiu Gilda retirar-se para os seus aposentos.
Acabou a testa e Gilda estava recostada nos coxins do seu divã. Passaram-se os dias c Gilda continuava recostada nos coxins. Os seus belos olhos azuis fixavam através da janela, em frente, o azul sempre límpido do céu, e iam esmorecendo dia a dia. Gilda sofria e o seu senhor não sabia dar-lhe remédio.
Vieram físicos de todo o reino, vieram mais físicos do mundo inteiro, e nenhum atinava com a causa daquela infinda melancolia. O senhor dos Algarves, sem saber mais que fazer, mandou anunciar pelo mundo que daria fortunas a quem lhe salvasse a mulher. E ninguém se apresentou para tentar, porque o fracasso equivaleria a perder a vida.
Gilda sofria, quase exangue, recostada nos coxins do seu divã, os olhos perdidos no azul do céu do Algarve. Perdidas estavam também as esperanças do senhor. Resignado, via definhar a sua bela Gilda sem que um gesto sequer lhe pudesse valer.
Uma tarde, porém, vêm dizer-lhe que um velho chegado das bandas do norte insistia em falar-lhe. Recebeu o homem, apenas porque invocava para ser ouvido a cura da sua preferida, mas não acreditou que a cura fosse possível.
- Quem és tu, velho?
— Senhor, sou um velho amigo de Gilda. Fui seu aio quando era menina e posso e quero salvá-la. Deixai-me falar-lhe, senhor!
- Seja, velho! Mas não acredito que lhe tragas a cura.
- Mesmo assim quero experimentar!
E o velho aio entrou no quarto de Gilda. O que lá se passou ninguém o soube. Ficaram sós durante muitas horas c, por fim, o velho saiu e pediu que o levassem ao senhor do palácio.
Chegado à câmara do árabe, o aio, aproximando-se de uma janela, disse:
- Senhor, o mal de vossa esposa é a saudade!
- Saudade, bom velho?! Que é isso?!
- Saudade, meu senhor, é uma coisa que se sente do que se ama e está ausente. E um mal que destrói a alma e corrói o corpo. Sim, meu senhor, ela tem saudades da neve que cobre de branco a nossa terra.
- E o que devo fazer, velho? Mudar-me para o norte?
— Não, senhor! Basta que planteis por esse Algarve fora amendoeiras, centenas de amendoeiras. No dia em que florescerem, todos os caminhos e montes parecerão cobertos de neve e ela curar-se-á.
O árabe ficou incrédulo, mas, apesar de tudo, decidiu fazer o que o velho aio dizia, quase só pela certeza por ele posta no que afirmava. Em todo o Reino dos Algarves foram plantadas milhares de amen-doeiras, enquanto Gilda permanecia entre coxins, definhando, morrendo pouco a pouco. Um dia, porém, as amendoeiras floriram. Milhões de pequeníssimas flores brancas cobriam enormes extensões. O parque do palácio era um imenso campo branco de maravilha.
Gilda ignorava tudo aquilo e o árabe, depois de ter ele mesmo admirado o espectáculo, correu à sua câmara pedindo-lhe que fizesse um esforço c se aproximasse da janela com ele. Gilda, a custo, ergueu-se do divã c, amparando-se no ombro do seu senhor, chegou à janela e olhou o parque. Durante longos segundos ficou extática, sem conseguir sequer emitir um som. Depois, murmurou, como quem fala em sonhos:
- E a neve! A neve da minha terra!
O resto que se passou não conta a lenda, mas é fácil de adivinhar. Gilda curou-se, sem dúvida, c ainda hoje, quando vem a Primavera, o Algarve cobre-se de minúsculas flores brancas, perpetuando o gesto de amor desesperado de um árabe de há longos séculos, do tempo de antes de os Portugueses chegarem.

FRAZÃO, Fernanda (rec.) Lendas Portuguesas


I

1. A "Lenda das amendoeiras", tal como os contos tradicionais, as adivinhas, os provérbios, as lengalengas, pertence ao património literário oral português. Em que região do país tem lugar esta história?

2. Retira do primeiro parágrafo do texto elementos que permitam localizar no tempo a acção narrada.

3. Logo no início da narrativa, é-nos apresentado um "poderoso senhor árabe", famoso em muitas partes do Mundo. Como é caracterizada esta personagem no início do texto?

4. A chegada de Gilda ao Reino dos Algarves vai transformar o dia-a-dia do senhor árabe.
4.1. Quem era Gilda?
4.2. Caracteriza-a fisicamente, com base em elementos textuais.
4.3. Gilda destacava-se das restantes mulheres que rodeavam o senhor árabe. Porquê?

5. O "poderoso senhor árabe" apaixona-se por Gilda e decide casar com ela. Delimita no texto os momentos que relatam e descrevem os preparativos do casamento e a própria cerimónia.
5.1. Tudo se transforma no reino e no palácio para comemorar o casamento. Transcreve passagens do texto que provem que o ambiente vivido era:
•alegre;
• exótico;
• luxuoso;
• cosmopolita.
5.2. Na descrição dos preparativos, várias são as sensações sugeridas pelo narrador. Dá exemplos de:
• sensações visuais;
• sensações auditivas.

6. Refere os principais divertimentos que o árabe oferecia aos seus convidados.

7. O estado de espírito de Gilda contrastava com a atmosfera que a rodeava. Porquê?

8. Os primeiros tempos de casada de Gilda são de muito sofrimento. Indica os principais sinais deste sofrimento.
8.1. O que faz o seu marido para a tentar curar?

9. A certa altura, aparece no palácio um velho originário das terras do Norte. Segundo ele, de que padecia Gilda? Porquê?

10. O que propõe o velho ao árabe para curar Gilda?

11. Esta lenda tem um final feliz e procura explicar uma realidade característica do Algarve. Qual é ela?

II

1. Sublinha o sujeito das seguintes frases:
a) "Os seus belos olhos azuis fixavam através da janela, em frente, o azul sempre límpido do céu,!...."
b) "E o velho aio entrou no quarto de Gilda."
c) "O árabe ficou incrédulo, l...l"
1.1. Em todas estas frases encontras adjectivos. Refere-os.
1.2. Que substantivos qualificam?
1.3. Indica a função sintáctica desses adjectivos.

2. Refere o hiperónimo dos seguintes grupos de palavras:
a) azuis - brancas - negra.
b) cítaras - alaúdes.

3. Indica o singular dos seguintes vocábulos:
• países;
• mongóis;
• multicolores;
• chineses;
• cristãos;
• menestréis.