8.2.08

Aparição

I

Leia, com atenção, este extracto que surge após a observação do álbum da tia Dulce.


SOU. Jacto de mim próprio, intimidade comigo, eu, pessoa que é em mim, absurda necessidade de ser, intensidade absoluta no limiar da minha aparição em mim, esta coisa, esta coisa que sou eu, esta individualidade que não quero apenas ver de fora como num espelho mas sentir, ver no seu próprio estar sendo, este irredutível e necessário e absurdo clarão que sou eu iluminando e iluminando-me, esta categórica afirmação de ser que não consegue imaginar o ter nascido, porque o que eu sou não tem limites no puro acto de estar sendo, esta evidência que me aterra quando um raio da sua luz emerge da espessura que me cobre. E estas mãos, estes pés que são meus e não são meus, porque eu sou-os a eles, mas também estou neles, porque eu vivo-os, são a minha pessoa e todavia vejo-os também de cima, de fora, como a caneta com que vou escrevendo...
Eu o disse, o repeti a Ana quando um dia me veio visitar. Eu a calei no silêncio da sua submersão até onde ela me começava a ouvir e estremecia também no cigarro febril, nos olhos cerrados até à sua procura e à sua angústia. Eu o disse e repeti a Sofia quando uma noite, sozinha, veio no carro do pai e se sentou à minha mesa e bebeu pela noite fora. Porque me procuraste, Sofia? Repeli-te, a princípio, não sei porquê. Talvez porque nada do que eras tu me fora prometido, talvez por renascer uma voz de justiça entre nós ambos e que eu escutava ainda, com uns ouvi¬dos justos ou injustos, não sei. Mas qualquer eco de desespero vibrava ainda em mim, vinha ainda e sempre talvez, porque é possível que só aí eu esteja certo e a evidência que me queima seja a procura ou a expressão disso que sou e me recuso. Assim te atravessei por fim da minha loucura ou da minha raiva, esse gosto furioso de vencer em ti o que em ti resistia ou me alucinava. Tu, uma pessoa inteira, tão flagrante, tão vibrante no teu contorno, no tom da tua voz insidiosa, nos teus gestos estriados de vício. Um segredo de ti me fascina - tocá-lo, vencer-te, vencer-me, saldar num urro toda esta aflição. Eis-me escrevendo como louco, aos tropeções nas palavras, enrodilhado, contraditório talvez, a boca amaldiçoada de secura, um frio íntimo nos ossos, um arrepio no ventre. Sofia... Saíste já alta noite, vim ver-te descer a colina, correr ao longo da estrada no rasto de uma pequena luz. A paz não está em nós, não está a minha em ti, não está em mim a tua. Mas tu queres amar o teu próprio desespero como uma embriaguez, eu sonho a plenitude dê umas mãos dadas com a vida. Talvez, porém, que para lá da minha verdade que procuro esteja a tua loucura. Não quero pensar agora - agora não. O luar verde de Março sobe no horizonte da minha noite de vigília, esta noite infinita em que escrevo. Olho-o pela janela na montanha e uma alegria profundamente triste embacia-me o olhar. Minha mulher dorme. Tremo de pensar que o sossego que às vezes me visita esteja só na sua bênção, na paz que irradia do seu silêncio. Estarei só e condenado? O reino da vida está cheio ainda do rasto dos deuses, como num país velho perdura a memória dos senhores antigos e expulsos. Mas o homem nasceu - nasceu agora da sua própria miséria e eu sonho com o dia em que a vida fique cheia do seu rasto de homem, tão certo e evidente e tranquilo como a luz da tarde de um dia quente de Junho...


Vergílio Ferreira, Aparição



1. Neste excerto de Aparição há uma mistura de tempos que dão complexidade à escrita.
1.1. Distinga o tempo da história e o tempo da escrita.
1.2. Identifique os tempos verbais usados na narração dos eventos e nas reflexões do narrador.

2. O narrador fala-nos do "limiar da minha aparição em mim."
2.1. Identifique realidades materiais que evidenciem que a aparição se faz também através da própria presença do EU.

3. Identifique os recursos estilísticos presentes na expressão: "O luar verde de Março sobe no horizonte da minha noite de vigília".

4. "O reino da vida está cheio ainda do rasto dos deuses, como num pais velho perdura a memória dos senhores antigos e expulsos."
4.1. Explique o sentido da expressão.
4.2. Mostre em que medida o papel da memória se revela importante para traduzir sentimentos e emoções.
4.3. Identifique o anseio de que, paralelamente e por contraste, o narrador nos dá conta.



II

Tudo tem o seu espirito, a gente é que não dá conta.
Vergílio Ferreira, Em Nome do Terra, pág. 45


Produza um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, em que mostre como Vergilio Ferreira traduz esta ideia ao reflectir sobre a existência na Aparição.