11.1.08

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.



Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadencia.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis



I

1. O poema pode dividir-se em três partes constitutivas. Delimite-as resumindo o desenvolvimento de cada uma.

2. Que concepção de amor subjaz ao poema? Justifique a sua resposta.

3. Explicite o sentido da expressão «passamos como o rio».

4. Explique a presença das palavras pagãos e pagã tendo em conta aquilo que sabe acerca da estética do heterónimo Ricardo Reis.

5. Identifique a figura de estilo presente no verso «levares o óbolo ao barqueiro sombrio» e aprecie o seu valor expressivo.

6. Atente na primeira estrofe do poema:
6.1. Classifique-a quanto ao número de versos.
6.2. Classifique os versos quanto à métrica.

7. Explique a formação das palavras «desassossego» e «beira-rio».

8. Atente na seguinte frase: «Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos».
8.1. Divida e classifique as orações da frase.
8.2. Que função sintáctica desempenha a expressão «as mãos»?
8.3. Classifique morfologicamente a palavra «porque».


II

Numa composição cuidada, aborde o posicionamento do heterónimo Ricardo Reis perante o tempo e a vida, confrontando-o com o posicionamento do heterónimo Álvaro de Campos.