23.1.08

Mestre Finezas



Estamos sozinhos na loja. De navalha em punho, mestre Finezas declama cenas inteiras dos «melhores dramas que ainda se escreveram». E há nele uma saudade tão grande das noites em que fazia soluçar de amor e mágoa as senhoras da vila que, amiúde, esquece tudo o que o cerca e fica, longo tempo, parado. Qs seus olhos ganham um brilho metálico. Fixos, olham-me mas não me vêem. Estão a ver para lá de mim, através do tempo.
Lentamente, aflora-lhe aos lábios, premidos e brancos, um sorriso doloroso.
— Eu fui o maior artista destas redondezas... — murmura.
Na cadeira, com a cara ensaboada, eu revivo a infância e sonho o futuro. Mestre Finezas já nem sonha; recorda só.
E, de novo, a sua mão treme junto da minha cara. No espelho, vejo-lhe o busto mirrado, os cabelos escorridos e brancos. Oiço-lhe a voz desencantada:
— A navalha magoa-te?
Uma onda de ternura por aquele velho amolece-me. Dá-me vontade de lhe dizer que não, que a navalha não magoa e nem sequer a sinto. O que magoa é ver a presença da morte alastrando peias paredes escuras da loja, escorrendo dos papéis caídos do tecto, envolvendo-o cada vez mais, dobrando-lhe o corpo para o chão...
Mas Mestre Finezas parece nada disto sentir. Salta de um assunto para outro com facilidade. Preciso de tomar atenção para lhe seguir o fio do pensamento. Agora faz-me queixas da vila. E termina como sempre:
— Esta gente não pensa noutra coisa que não seja o negócio, a lavoura. Para eles, é a única razão da vida...
Volto a cabeça e olho-o. Sei o que vai dizer-me, Vai falar-me do abandono a que o votaram. Vai falar-me do teatro, da música, da poesia. Vai repetir-me que a arte é a mais bela coisa da vida. Mas não. Já nos entendemos só pelo olhar. Mestre Finezas salta por cima de tudo isto e ergue a navalha num lance teatral: Que sabem eles da arte? Tu que estudaste, tu sabes o que é a arte. Eles hão-de morrer sem nunca terem gozado os mais belos momentos que a vida pode dar.
Atravessou a loja, abriu um armário cavado na parede, e tirou o violino.
— Eu não te disse nada, Carlinhos... mas, olha, tenho vendido tudo para não morrer de fome... Tudo. Mas isto!...
Estendeu o violino na minha direcção e continuou reprimindo um soluço:
— Isto nem que eu morra!... É a minha última recordação...
Calou-se por muito tempo com os olhos no chão. Depois, de boca muito descerrada, disse-me como quem pede uma esmola:
— Tu queres ouvir uma música que eu tocava muito, Carlinhos?...
— Quero...— respondi forçando um sorriso de agrado.
Nem me ouviu. Estava, ao meio da loja, entre mim e a porta, e prendia o violino no queixo.
O arco roçou pelas cordas e um murmúrio lento começou, no silêncio que vinha das ruas da vila e enchia a casa. Lentamente, o fio de música ia engrossando. Era agora mais forte — agudo, desamparado como um choro aflito. E demorava, ondeava por longe, vinha e penetrava-me de uma sensação dolorosa.
Levantei-me, de toalha caída no peito, cara ensaboada, preso não sei de que vagos desgostosos pensamentos. Talvez pensasse em fugir, pedir-lhe que não tocasse mais aquela música desafinada e triste.
Mas, na minha frente, mestre Finezas, alheio a tudo, fazia gemer o seu violino, as suas recordações. O só! da meia tarde entrava peta porta e aureolava-o de uma luz trémula. E erguia o corpo como levado na toada que os seus dedos desfiavam; ficava nos bicos dos pés, todo jogado para O tecto.
De súbito, uma revoada de notas soltaram-se, desencontradas, raivosas. Encheram a loja. e ficaram vibrando...
Os braços caíram-lhe para os lados do corpo. Numa das mãos segurava o arco, na outra o violino. E, muito esguio, macilento, mestre Finezas curvou a cabeça branca, devagar, como a agradecer os aplausos de um público invisível.

Manuel da Fonseca


I

1. Localize a acção do texto no espaço, ilustrando a sua resposta com expressões do texto.

2. Toda a acção aqui apresentada se desenvolve a volta de duas personagens.
2.1. Identifique-as e classifique-as quanto à sua importância na acção.
2.2. Caracterize fisicamente a personagem principal e diga quais os processos de caracterização utiliza¬dos.

3. Classifique e narrador deste texto quanto à sua presença. Justifique a sua resposta.

4. "E há nele uma saudade tão grande das noites em que fazia soluçar de amor e mágoa as senhoras da vila..."
4.1. Segundo e narrador de que é que Mestre Finezas sentia saudade?

5. " Os seus olhos ganham um brilho metálico. Fixos, olham-me mas não me vêem. Estão a ver parca lá de mim, através do tempo."
5.1. Explique, convenientemente, o sentido destas afirmações do narrador.
5.2. Indique a que classe d* palavras pertence a palavra sublinhada.
5.3» Escreva uma palavra da mesma família da palavra sublinhada que corresponda a um verbo.

6. Neste texto são utilizados vários modos de apresentação da narrativa.
6.1. Identifique-os.
6.2. Transcreva do texto um exemplo de cada um dos modos de apresentação.

7. Atente na seguinte expressão:
"... a presença da morte alastrando pelas paredes escuras da loja..."
7.1. Identifique a figura de estilo utilizada na frase acima transcrita e justifique.

8. " Mas Mestre Finezas parece nada disto sentir."
8.1. Escreva uma frase em que utilize uma palavra hamónima daquela que se encontra destacada na frase anterior.


II

1. Mestre Finezas e Carlos (o narrador ) tiveram UM sonho que não se concretizou.
Redija uma pequena composição subordinada ao tema "O meu Sonho".