9.1.08

Frei Luís de Sousa, Acto I, Cena II


CENA II
Madalena e Telmo Pais

TELMO (Chegando ao pé de Madalena que não sentiu entrar) – A minha senhora está a ler?...
MADALENA (Despertando) Ah! sois vós, Telmo... Não, já não leio: há pouca luz de dia já; confundia-me a vista: – E é um bonito livro este! O teu valido, aquele nosso livro, Telmo.
TELMO (Deitando-lhe os olhos) – Oh, oh! Livro para damas – e para cavaleiros... e para todos: um livro que serve para todos; como não há outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor... quero dizer como o Sr. Manuel de Sousa Coutinho – que lá isso!... acabado escolar é ele. E assim foi seu pai antes dele, que muito bem o conheci: grande homem! Muitas letras e de muito galante prática – e não somenos as outras partes de cavaleiro: uma gravidade!... Já não há daquela gente: – Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar assim noutra língua que a gente... que toda a gente não entende... confesso-vos que aquele mercador inglês da Rua Nova, que aqui vem às vezes, tem-me dito suas coisas que me quadram... E Deus me perdoe! que eu creio que o homem é herege desta seita nova de Alemanha ou de Inglaterra. Será?
MADALENA – Olhai, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis que desde o tempo que... que...
TELMO – Que já lá vai, que era outro tempo.
MADALENA – Pois sim... (Suspira.) Eu era uma criança; pouco maior era que Maria.
TELMO – Não, a Srª D. Maria já é mais alta.
MADALENA – é verdade tem crescido de mais, e de repente nestes dois meses últimos...
TELMO – Então! Tem treze anos feitos, é quase uma senhora, está uma senhora... (À parte.) Uma senhora aquela... pobre menina!
MADALENA – (Com as lágrimas nos olhos.) – És muito amigo dela, Telmo?
TELMO – Se sou! Um anjo como aquele... uma viveza de espírito e então que coração!
MADALENA – Filha da minha alma! (Pausa; mudando de tom.) Mas olha, meu Telmo, torno a dizer-to: eu não sei como hei-de fazer para te dar conselhos. Conheci-te de tão criança, de quando casei a... a... a primeira vez – costumei-me a olhar para ti com tal respeito: já então eras o que hoje és, o escudeiro valido, o familiar quase parente, o amigo velho e provado de teus amos...
TELMO (Enternecido.) – Não digais mais, Senhora, não me lembreis de tudo o que eu era.
MADALENA (Quase ofendida.) – Porquê? Não és hoje o mesmo, ou mais ainda, se é possível? Quitaram-te alguma coisa da confiança, do respeito – do amor e carinho a que estava costumado o aio fiel do meu Senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória?
TELMO (À parte.) – Terá...


Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto I




I

1. Integre o excerto que acabou de ler na estrutura da obra a que pertence.

2. Caracterize as personagens que entram em cena.

3. Identifique o livro que Madalena está a ler e refira a sua importância na acção da peça.

4. Comente a seguinte afirmação de Telmo: «eu creio que o homem é herege desta seita nova de Alemanha ou de Inglaterra».

5. Relacione as últimas falas das personagens com o desfecho da peça.

6. Atente na seguinte frase: «Eu não sei como hei-de fazer para te dar conselhos».

6.1. Divida e classifique as orações da frase.

6.2. Coloque a frase no condicional.

6.3. Dê um exemplo de uma palavra homófona de conselho.


II

O fanatismo religioso tem causado imensas vítimas desde sempre. Numa composição cuidada, reflicta nesta temática, relacionando-a com a actualidade.