14.1.08

As adivinhas em anexins


Um rei quis experimentar o juízo de três conselheiros que tinha, e indo passear com eles encontrou um velho a trabalhar num campo, e saudou-o:
- Muita neve cai na serra! Respondeu o velho com a cara alegre:
- Já, senhor, é tempo dela.
Os conselheiros ficaram a olhar uns para os outros, porque era Verão, e não percebiam o que o velho e o rei queriam dizer na sua. O rei fez-lhe outra pergunta:
- Quantas vezes te ardeu a casa?
- Já, senhor, por duas vezes.
- E quantas vezes contas ser depenado?
- Ainda me faltam três vezes.
Mais pasmados ficaram os conselheiros; o rei disse para o velho:
- Pois se cá te vierem três patos, depena-os tu.
- Depenarei, real senhor, porque assim o manda.
O rei seguiu o seu caminho a mofar da sabedoria dos conselheiros, e que os ia des¬pedir do seu serviço se lhe não soubessem explicar a conversa que tivera com o velho. Eles, querendo campar por espertos, foram ter com o velho para explicar a conversa; o velho respondeu:
- Explico tudo, mas só se se despirem e me derem o dinheiro que trazem. Não tiveram outro remédio senão obedecer; o velho disse:
- Olhem: «Muita neve cai na serra», é porque eu estou cheio de cabelos brancos; «já é tempo dela», é porque tenho idade para isso. «Quantas vezes me ardeu a casa?» é porque diz lá o ditado: «Quantas vezes te ardeu a casa? Quantas casei a filha». E como já casei duas filhas sei o que isso custa. «E quantas vezes conto ser depenado?» é que ainda tenho três filhas solteiras e lá diz o outro:
Quem casa filha Depenado fica.
Agora os três patos que me mandou o rei são vossas mercês, que se despiram e me deram os fatos para explicar-lhes tudo.
Os conselheiros do rei iam-se zangando, quando o rei apareceu, e disse que se eles quisessem voltar para o palácio vestidos que se haviam ali de obrigar a darem três dotes bons para o casa-mento das outras três filhas do velho lavrador.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



I

1. «Um rei quis experimentar o juízo de três conselheiros que tinha.»
1.1. A partir da expressão, identifique características do conto popular, tendo em conta o tempo e as personagens.
1.2. Indique os tempos das formas verbais que se encontram na transcrição.

2. O número três aparece em muitos contos populares, comportando uma carga sim¬bólica.
2.1. Explicite a simbologia que esse número mágico pode adquirir ao longo desta narrativa.

3. Há diferentes modos de expressão que se articulam perfeitamente ao longo do texto.
3.1. Identifique, justificando, esses segmentos discursivos.

4. O conto tradicional procura transmitir uma moralidade ou um conjunto de valores.
4.1. Identifique a moralidade que se pode encontrar neste conto.


II

1. Do grupo de palavras apresentado abaixo, enumere as que podem ser consideradas cognatas, ou seja, da mesma família.
amor, amoroso, amigo, amargo, amantelado, amaragem, amável, amanho, amorável

2. Construa uma frase contendo o vocábulo concertação e outra contendo o vocábulo concerto. As duas frases devem mostrar claramente a diferença semântica entre as duas palavras.