10.12.07

O Caldo de Pedra



Um dia um frade andava ao peditório e chegou à porta de um lavrador, onde não lhe quiseram dar nada. O frade estava a cair de fome, e disse:
Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu- lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:
- Se me emprestassem aí um pucarinho?
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasa.
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava um primor.
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso; bem precisava de uma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:
- Agora é que com uns olhitos de couve ficava, que os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço: ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço, depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Oh, senhor frade, então a pedra?
Respondeu o frade:
- A pedra, lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português


I

1. Identifica as personagens do texto.

2. Caracteriza o frade, tendo em conta o ardil imaginado para atingir o seu objectivo.

3. Os referentes temporais do decorrer da acção surgem traduzidos pela forma verbal da primeira frase do conto. Identifica o verbo e o tempo verbal em que se encontra.

4. Localiza a acção no espaço e no tempo.

5. Quanto à localização no espaço e no tempo, este conto insere-se na literatura de transmissão oral. Justifica.

6. Explica a razão da situação referida na frase transcrita: e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo.
6.1.Como reagiram as personagens presentes?
6.2. Diz o que pensas dessa atitude.

7. Identifica a moralidade que se pode extrair do conto.

8. Escreve no discurso indirecto:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.

9. Identifica a figura de estilo presente na frase: a panela começou a chiar.


II

Dos dois temas a seguir apresentados, escolhe apenas UM.

1- Imagina um diálogo travado entre os donos da casa e o frade, após terem percebido o estratagema usado.

2- Escreve um curto e bem elaborado texto subordinado ao tema: Pobreza.