28.12.07

Fim de tarde na cidade




Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam para a rua centenas de pessoas, E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam repletas dum momento para t» outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encontrões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por fora dos estribos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela hora apressadamente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pela casa de chá, para matar o tempo de qualquer maneira, ver caras conhecidas, cumprimentar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora do jantar.
A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas penduradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder arrumar um pé, nada mais que um pé, num caminho do estribo, muitas vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar. Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito aborrecido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas repletas em que não viajavam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos pouco correctos e onde esses mesmos homenzinhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro insuportável. Que fazer, no entanto, senão atirar-se uma pessoa também para aquele mar de gente que empurrava, furava, pisava e barafustava até chegar ao carro? Que fazer senão empurrar, furar, pisar e barafustar também?


Mário Dionísio, O Dia Cinzento e Outros Contos


Texto B


CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar c as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo.
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes e não vejo
Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de M.B. Andresen, Antologia



I

Lê o texto A e responde às seguintes perguntas:

1. Caracteriza o ambiente na cidade ao fim da tarde.

2. Indica os factores que distinguem os grupos sociais referidos no texto.

3. Explica a frase seguinte: "A multidão propunha uma confraternização à força'

4. O texto fornece uma determinada visão dos meios de transporte públicos,
a) Com base no texto, refere os inconvenientes da sua utilização,
b) Aponta outros riscos a que estão sujeitos os seus utentes.


II

Lê o texto B e responde às questões seguintes:

1. Indica o efeito que a cidade exerce na poetisa.

2. Caracteriza a vida em contacto com a Natureza.

3. "[...] planícies mais vastas/Que o mais vasto desejo."
a) Refere o desejo revelado nestes versos.
b) Identifica os graus dos adjectivos contidos nesses versos.

4. Faz o esquema rimático do poema e classifica os seus tipos de rima.


III

Aponta as ideias comuns aos dois textos apresentados.
Distingue os textos A e B ao nível da forma.