13.12.07

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar

Beach House Art Print by Daniel Pollera

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, sem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei logo de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calado e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E começo a morrer muito antes de ter vivido.

Deito aqui onde jazo, só uma brisa que passa.
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fernando Pessoa


I

1. O sujeito poético situa-se na orla da praia.
1.1. Caracterize o espaço sugerido ao longo do poema.
1.2. Considerando o valor semântico dos adjectivos no primeiro verso das estrofes alternadas, mostre que há um valor simbólico associado a esse espaço.

2. Na segunda estrofe, há uma definição da vida.
2.1. Explicite o conceito de vida revelado ao longo do poema.
2.2. Identifique e defina os valores morais que se destacam no conceito de vida.

3. "Por isso" (v. 9) introduz uma conclusão que resulta do sentimento de vida.
3.1. Explicite os sentimentos que o sujeito lírico exprime.
3.2. Determine a conclusão ou projecto de vida que formula.

4. Analise a construção formal do poema, tendo em atenção que há uma segmentação do verso em redondilhas maiores que rimam entre si.


II

Num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, comente as seguintes afirmações do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares:

«A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. [...] Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti.»

«A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror.»

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego de Bernardo Soares (fragmentos)