27.12.07

Ah, um soneto...


Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?..

Álvaro de Campos, Poesias, Ed. Ática


I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:

1. A primeira quadra é dominada por uma figura de estilo.
1.1. Identifique-a e clarifique o seu sentido tendo em linha de conta dois tempos:
- o passado;
- o presente.
1.2. Descubra, ao longo do poema, outras duas figuras de estilo e relacione o seu sentido com a primeira que identificou.
1.3. Diga como é que a iteração presente na primeira quadra intensifica o inconformismo do abandono da "profissão do mar".

2. Distinga dois mundos ou domínios:
- o da memória e sensibilidade;
- o do real.
2.1. Refira como se interligam.

3. Comprove que os sentimentos que dominam o sujeito poético remetem para esta identidade: coração/pessoa.

4. Faça o levantamento das expressões de nível popular e refira o papel que desempenham na
comunicação.
5. Explique o título do poema em oposição ao versilibrismo e heteromorfismo da poesia de Álvaro
de Campos.


II

Fernando Pessoa afirma que Álvaro de Campos «é o filho indisciplinado da sensação».
Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática das sensações na poesia heteronímica de Fernando Pessoa.