28.11.07

Porto Manso



É um rio louco, que abriu caminho em fúria por entre montes gigantes e, obstinado, quis ir ver o mar. R chegou. Cansado, mas chegou.
Em toda a jornada lutou sempre com penhascos e xistos, com fraguedo e granito, dando cara a tudo o que lhe quis barrar o caminho. E os homens das suas margens aprenderam este sentido de luta. Construíram os seus barcos e ofereceram batalha ao rio enlouquecido e raivoso no torvelinho das suas águas traiçoeiras.
Vai por uma estrada tortuosa, retorcida e causticada, passando promontórios, fragões, baixéis e areias. Nunca a natureza lutou tanto com a natureza. E é alucinante e maravilhoso para os homens ir nas mãos da morte — e vencer a morte.
É um caminho de alucinação e de sonho — cansa e conforta.
Por isso os marinheiros se apaixonam por de como por uma mulher de mil feitiços. Dão-lhe tudo — o esforço titânico, o suor que é sangue e o sangue que é vida. Oferecem-lhe a vida a sorrir e o rio nada lhes dá em troca. Não é mais do que uma estrada de mendigos cegos que não podem tomar outro rumo. Cegos como o rio, loucos como ele.
O Douro, porém, chegou cansado para ver o mar, mas chegou.


Alves Redol, Porto Manso


I

1.
a) Caracteriza, por palavras tuas, o rio que é descrito no texto.
b) Identifica um recurso estilístico utilizado na apresentação desse rio e define-o.

2. Explica as frases seguintes:
a) "Nunca a natureza lutou tanto com a natureza."
b) "E um caminho de alucinação e de sonho—cansa e conforta."
c) "O Douro, porém, chegou cansado para ver o mar, mas chegou."

3.
a) Explicita o sentido em que a palavra "suor" está utilizada no texto.
b) Refere um outro sentido para o mesmo termo.
4. Divide o texto em partes e salienta a relação que existe entre elas.


II

Imagina e escreve uma notícia de jornal, inspirando-te na seguinte frase do texto: "É alucinante e maravilhoso para os homens ir nas mãos da morte — e vencer a morte".