15.11.07

O charlatão

O sítio deles era à entrada da ponte, no Largo Velho.
- Ora aqui temos nós a última descoberta científica do século!
Falava de cima de uma cadeira, em pé, ao lado de uma mesa, sobre a qual estava um grande baú aberto. Passeava-lhe um rato branco pêlos ombros, e era impossível fugir à magia daquela 5 enorme cabeleira, que lhe coroava uma bela fronte de lutador. Só vinha na feira dos vinte e três. Armava a tenda logo pela manhã, e daí a nada já tinha freguesia a beber-lhe as palavras. A sua voz era sugestiva, funda, com quantos tons eram precisos para encantar homens de todas as terras e de todas as raças.
- Façam favor de ver...
E só quem era cego é que não via.
- Vou agora contar-lhes uma anedota.
Os que já faziam parte da roda arrebitavam as orelhas, os que iam no seu caminho paravam e ficavam maravilhados a ouvir. No fim, todos se riam, que a coisa tinha, na verdade, graça.
- Vou agora mostrar a W. Ex.as a autêntica víbora da felicidade!
"Excelências"?! Estava a brincar, ou a falar a sério? Mas ao fim e ao cabo, quem é que não gosta, uma vez na vida, de ser tratado por "excelência"? E um, de Almalaguês, perdeu a cabeça e lá com-prou aquele "talismã da felicidade" por cinco escudos.
- Bem burro! - não se conteve uma criada. Mas estava era com pena de o não ter comprado ela.
Já nova maravilha saía das profundezas do baú.
- Sarna, eczema, impigens, lepra, furúnculos, tudo quanto uma pele humana possa conceber, é enquanto o demónio esfrega um olho! Vejam: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouco, que é para poupar, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze! Aproveitem, que numa drogaria custa-lhes dois escudos!


Miguel Torga, Rua
texto com supressões)


I

1. Identifica e caracteriza, do ponto de vista físico e social, o espaço em que decorre a acção.

2. Indica o acontecimento que anima esse espaço social.

3. Classifica as personagens do texto quanto ao relevo ou importância no desenrolar da acção.

4. Que efeito exercia o charlatão sobre o seu auditório?

5. Que factores contribuíam para criar esse efeito?

6. Faz a caracterização física e psicológica do charlatão.

7. "E um, de Almalaguês, perdeu a cabeça e lá comprou aquele 'talismã da felicidade...'".
7.1. Que motivo levou o cliente a perder a cabeça?
7.2. Comenta a reacção da criada que testemunhou a compra.