13.11.07

Da mais alta janela da minha casa

Bay Window Vista II Art Print by Diane Romanello


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


I

1. Depois de ler o poema com atenção comprove:
1.1. que a temática do texto gira em torno da criação poética;
1.2. que o poeta revela que o fenómeno cultural se associa ao fenómeno da criação poética.

2. Explicite o sentido da dicotomia: interior/exterior.

3. Localize, no poema, um paralelismo semântico e explique-o.

4. Descubra uma antonímia ao nível dos adjectivos e uma escala de valores ao nível dos substan-
tivos/formas verbais.

5. No último verso está implícita uma regeneração cósmica. Justifique a afirmação anterior.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática da heteronímia com base nestas frases de Fernando Pessoa:

«Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.»