30.11.07

Cena do Frade


Vem um Frade com ua Moça pela mão e um broquel e a espada na outra, e um casco debaixo do capelo: e. Ele mesmo fazendo a baixa, começou de dançar dizendo:

Fra. Tai-rai-rai-ra; tari-ri-ra;
ta-rai-rai-rai-ra; tn-ri-ri-ra.' ta-La;
ta-ri-rim-rim-ra. Huha!
Dia. Que é isso, padre? Que vai lá?
Fra. Deo gratias! Som cortesão.
Dia. Sabês também o tordião?
Fra Porque não? Como ora sei!
Dia. Pois, entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.
Essa dama, é ela vossa?
Fra. Por minha lá tenho eu,
e sempre a tive de meu.
Dia. Fezestes bem, que é fermosa!
É não vos punham lá grosa
no vosso convento santo?
Fra. E eles fazem outro tanto!
Dia. Que cousa tão preciosa...
Entrai. padre reverendo!
Fra. Para onde levais gente?
Dia. Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo.
Fra. Juro a Deos que nom t'entendo!
E este hábito nõ me val?
Dia. Gentil padre mundanal,
a Berzabu vos encomendo!
Fra. Ah Corpo de Deos consagrado!
Pela fé de Jesu Cristo,
que eu nom posso entender isto!
Eu hei-te ser condenado?
Um padre tão namorado
e tanto dado a virtude?
Assi Deos me dê saúde.
que eu estou masvilhado!
Dia. Não curês de mais detença.
Embarcai e partiremos:
tomareis um par de remos.
Fra. Nom ficou isso n'avença
Dia. Pois dada está já a sentença!
Fra. Par Deos! Essa seri’ela!
Não vai em tal caravela
minha senhora Florença.
Como? Por ser namorado
e folgar com ua mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?
Dia. Ora estás bem aviado!
Fra. Mais estás bem corregido!
haveis de ser cá pingado...
Dia. Devoto padre e marido,

Descobriu o Frade a cabeça, tirando o capelo, e apareceo o casco, e diz o Frade:

Fra. Mantenha Deos esta coroa!
Dia. Ó padre Frei Capacete!
Cuidei que tínheis barrete!
Fra. Sabê que fui da pessoa!
Esta espada é roloa
e este broquel rolão.
Dia, Dê Vossa Reverença lição
d'esgrima, que é cousa boa
(...)
Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:

Vamos à barca da glória!
Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando ate' a batel do Anjo desta maneira

Fra. Ta-ra-ra-rai-ra'; ta-ri-ri-ri-ri-ri:
rai-rai-ri; ta-ri-ri-ri: ta-ri-ri-ri.
Huha'!
Deo Gratias! Há lugar cá
pera minha reverença?
E a senhora Florença
polo meu entrará lá!
Joa. Andar, muitieramá
Furtaste o trinchão, frade?
Fra. Senhora. dá-me à vontade
que este feito mal está.
Vamos onde havemos d'ir.
não praza a Deos com a ribeira!
Eu não vejo aqui maneira
senão enfim... concrudir.
Dia. Haveis, padre, de viir.
Fra. Agasalhai-me ii Frorença.
e compra-se esta sentença
e ordenemos de partir.

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno


I

Presta atenção ao texto que te foi apresentado.
Lê atentamente as afirmações feitas e apaga o que considerares errado.


1. O Frade é uma das personagens escolhidas por Gil Vicente.
Apresenta-se no cais com:
- uma moça; - um bolsão; - uma cadeira; - um casco; - uma espada; - livros; - um bruquel; - um capelo.
1.1. Estes elementos são símbolos cénicos e servem para:
- caracterizar a personagem.
- distrair a personagem na outra vida.

2. Quando chega ao cais, o Frade mostra-se:
- preocupado;
- alegre;
- confiante;
- arrependido.
2.1. Transcreve do texto expressões que comprovem a tua escolha.
2.2. Tendo em conta o estado de espirito com que o Frade entra em cena, escolha as palavras que melhor o caracterizam:
- inconsciente; - consciente;
- sensato; - insensato;
- exuberante; - simples.

3. Nas intervenções do Diabo evidencia-se a incoerência vivida pelo Frade. Assim ele vai sendo acusado de:
- ser devasso;
- viver de acordo com os prazeres da vida mundana; ser humilde e austero.

4. O Diabo não tem duvidas acerca do destino a dar a Frei Babriel:
- " Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo."
4.1. Nesta transcrição esta presente:
- um eufemismo.
- uma metáfora.

5. Em relação ao que o Frade afirma acerca da mulher que leva consigo
"e sempre a tive de meu.", o Diabo diz:
"Fezestes bem ,que é fermosa!
E não vos punham lá grosa
No vosso convento Santo?"
5.1. Com base nestas palavras do Diabo, podemos dizer que o seu estado de espirito é de:
- satisfação; - contentamento;
- revolta; - tristeza.
5.2. Selecciona desta fala do Diabo uma expressão que exemplifique a ironia.
5.3. O Frade argumenta dizendo: "E eles fazem outro tanto!
Através desta expressão, Gil Vicente pretendia:
- generalizar a critica a toda a classe do clero. arranjar argumentos de defesa do Frade.

6. O Frade discorda da sentença dada pelo Diabo em relação ao seu destino e dirige-se à Barca do Paraíso. A sua chegada:
- o Anjo recebe-o calorosamente.
- o Anjo despreza-o e é Joane que lhe fala.
6.1. Junto da Barca do Anjo, o Frade:
- apresenta argumentos validos e entra nesta Barca juntando-se ao Anjo e a Joane.
- Reconhece a sua vida dissoluta e regressa final mente para junto do Diabo entrando na sua Barca.
6.1.1.Quando decide concordar com o seu destino o Frade mostra-se:
- resignado;
- revoltado;
- alegre;
- desiludido.

7. Ao criar esta obra, Gil Vicente pretendia:
- distrair apenas as pessoas
- criticar para moralizar a sociedade.